Um pouco de história

Repositório de trabalhos de alunos. Conteúdo experimental.

Mariana Travieso Bassi


[editar] Livro e História: evolução de uma metalinguagem

Quando se fala em produção gráfica não tem como deixar de lado a história da editoração, pois nosso tema aqui é nada mais nada menos que uma evolução dela. Então por que não termos uma noção do que aconteceu até chegarmos ao que conhecemos hoje como planejamento, execução e publicação de um material?

Venha conosco e embarque nesta rápida viagem no tempo, começando pelas sociedades arcaicas e sua relação com os primeiros – protótipos – de livros, passando pela revolução industrial, chegando até no que conhecemos hoje como e-books. Claro que não pretendemos aqui cobrir todos os fatos, mas sim oferecer a você, leitor, uma noção da evolução desse processo, tão necessário à sociedade, que é o registro da escrita.


O berço desta jornada está no Egito antigo, por volta de 3000 a.C., onde o homem pela primeira vez se vê capaz de registrar pensamentos, ações e estratégias, e deixá-los para a posteridade. Tal habilidade revelou-se tão fascinante e conferia tanto poder – como o de falar com as futuras gerações -, que logo foi associada ao divino, e permitida somente à família do Faraó e seus escribas. Os temas principais dos registros, constituídos pelos símbolos chamados hieróglifos, eram política, estratégias militares e religião, feitos principalmente em rolos de papiro (ou como eles denominavam, karthés).

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(papiro preenchido por hieróglifos egípcios)

Dando um salto no tempo, paramos por volta do século II a.C., na Suméria. Dentro desta nação mercantil, se percebeu a necessidade de um tipo de registro, mais rápido e fácil para atividades cotidianas. Daí surge outro tipo de escrita, a cuneiforme, constituída por sílabas e não mais símbolos. Gravada em blocos de argila, seus temas principais eram transações comerciais, cotidiano, política, e administração. E, baseados nas práticas mercantis dos fenícios, os sumérios passaram a comercializar também os utensílios utilizados na escrita, ajudando a popularizar esse método antes restrito às elites. É interessante notar que, ao passo em que isto ocorria no Ocidente, no Oriente – mais especificamente na China -, já se utilizava papel feito de celulose como suporte, mas os ideogramas ainda se assemelhavam aos hieróglifos egípcios: complexos e reservados apenas aos poderosos.

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(tábua de argila preenchida por escrita cuneiforme)

Outro salto no tempo nos leva para os últimos anos antes de Cristo, onde o papiro e a argila são substituídos por um suporte mais resistente, o pergaminho, feito a partir de couro de animais, difundido pela cidade grega de Pérgamo. Mais ou menos na mesma época passa-se a usar o códex ao invés do volumen, ou seja, compilação de páginas ao invés de rolos. É aí que se inicia a noção do objeto livro, da obra como livro.

E a história se desenrolou, com mudanças e reviravoltas de poder, o grande Império Romano dominou e se dissolveu. Invasores e conquistadores de outras regiões chegaram à Europa, e como reação de proteção, formaram-se os feudos. Dentro destas pequenas comunidades fechadas em si, proclama-se a Bíblia como a palavra máxima, e em volta dela, forma-se todo um campo de atividade: a dos monges copistas. Com isso a escrita volta a ter uma aura de divindade, e ser uma atividade reservada para poucos, sendo a França país de maior produção editorial religiosa da época (por volta do século V). Ou seja, foi lá onde mais se realizou cópias manuscritas da palavra de Deus, com capas finamente ornamentadas, iluminuras e capitulares, ganhando com o tempo pontuação, margens, letras maiúsculas e minúsculas, sumários e índices.

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(páginas de uma Bíblia manuscrita, da Idade Média)

Enquanto os monges faziam seu trabalho nas bibliotecas, as invasões lentamente pararam, e as comunidades feudais sentiram-se seguras o bastante para arriscarem trocas de excedentes com as vizinhas. Neste lento processo de abertura, a partir do séc IX, quem se destaca é a bacia mediterrânea, com a substituição da antiga mentalidade religiosa pela comercial, da produção editorial e da utilização do papel de celulose, em substituição ao pergaminho – fazendo dela o pólo europeu da época nestes dois campos. Trata-se de uma época de crescente interesse por mundos diferentes, com a criação, em Gênova e Veneza, das primeiras Repúblicas Marinheiras, e em vários lugares da Europa, dos contos e fábulas sobre novos mundos e seus perigos, retratados por livros e peças de teatro.

Tal abertura de horizontes também ocorreu no campo literato, pois com o surgimento das Universidades – entre o séc X e o XIII, por toda a Europa -, foi permitido aos estudiosos o acesso a documentos e conhecimentos antes guardados em sigilo pela Igreja. Assim, a escrita passa definitivamente de palavra divina a registro humano – principalmente de relato, por conta das viagens marítimas -, o que possibilita também a regionalização dos processos de edição, pois não sendo mais algo inquestionável e imutável, hábitos locais começaram a ser empregados em sua realização.

Acompanhando este processo, tem-se o surgimento das companhias tradutoras, tanto no extremo leste europeu quanto na Europa central, sendo uma das mais famosas a Escola de Tradutores, em Toledo, Espanha, datada do século XI. Isso possibilita e aumenta a difusão de documentos escritos em vulgar (idioma local) e Latim. Um século depois foi a vez de Paris, capital da França, voltar a ser o pólo de difusão de cultura.

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(parte do Almagest, de Ptolomeu, traduzido do arábico ao latim por Gerard de Cremona - Toledo, Espanha, séc XII)

Com o início do estudo e da reflexão sobre a história da própria humanidade, a partir do século XIV a Europa inicia seu período Humanista. O número de traduções aumenta, assim como o estudo de línguas estrangeiras. O texto escrito se populariza mais, e o papel ganha qualidade. Países do Oriente, mais especificamente o Turquestão e a Coreia, já exibem seus anais impressos através de um sistema de “palavras móveis”, talhadas em madeira, processo iniciado três séculos antes pelo chinês Pi Chong.

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(página impressa com tipos móveis - Coreia, séc XV)

Voltando ao Ocidente do século XV, assiste-se em palcos europeus a decadência do poder monástico e de suas publicações, o aumento das de caráter científico, e o desligamento entre universidades e religião. A função da prática editorial passa a ser a produção de textos que facilitem novas pesquisas. Em termos de impressão, começa a se utilizar o processo de “tabulação”, ou seja, de impressão xilográfica. Espanha e Portugal tornam-se sedes das principais impressoras da época, respectivamente: Córdoba e Pelmat, e Robbizorba e Raban.

É interessante ressaltar que, além do livro impresso imitar o escrito à mão, a evolução da impressão foi um processo que se esticou durante longo período, e que os fatos hoje tidos como marcantes foram apenas frutos dessa corrente de mudanças e aperfeiçoamentos. Tanto que, nessa época, estourou a polêmica sobre a primazia da nova tecnologia de impressão, cujos principais expoentes foram o holandês Lorenzo Jazoon, com sua Gramática de Hélio Donato, o italiano Castaldi, com sua Crônica de Feltre, e o alemão Gutemberg, com sua Bíblia. O último, assim como a história conta, levou a melhor, e o livro conhecido como “a Bíblia de Gutemberg”, impresso no ano de 1454 em Mainz, na Alemanha, passou a ser o marco da fundação da imprensa no Ocidente. Deste período em diante se fizeram cada vez mais presentes questões éticas sobre o ramo, como os direitos autorais, o questionamento da censura, e a especialização do trabalho editorial e gráfico, além de ocorrer o surgimento dos locais oficiais de distribuição de livros – como as feiras e livrarias.

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(prensa de Gutemberg)

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(Bíblia de Gutemberg - Alemanha, séc XV)

Trata-se portanto de uma época de grandes avanços na imprensa, abundância de produção editorial, e consequente falta de originalidade das obras - a própria informação passa a ser ligada à originalidade. A estética gráfica também é renovada, os ornamentos viram elementos avulsos, e não mais imprescindíveis – ou ligados ao divino, como na medievalidade -, e há a padronização da encadernação e da tipografia das edições. E como sempre na história, os novos processos tiveram de enfrentar grande batalha para se instalar em locais de primazia das edições amanuenses, tradicionais. Foi por isso também que a maioria dos impressos iniciais eram obras de menor valor.

De qualquer forma os novos processos acabaram ganhando espaço e mercado, justamente por seu preço mais baixo, maior clareza, rapidez e pelo caráter de novidade. Assim, até as Igrejas começaram a adotar tal sistema de impressão, através de suas cartas de indulgência. E com o tempo, tais métodos foram aprimorados, tanto em relação ao material (suporte) quanto em relação à tipografia, e difundidos pela Europa e suas colônias, sendo a primeira delas o México, em 1539.

O desenvolvimento europeu assim se encaminha para o Renascimento, por volta do século XVI, com o aumento da diversidade do conteúdo editorial científico e religioso, contando agora com o elemento da imagem, e com a encadernação esteticamente construída como um elemento à parte – não mais apenas como proteção ou enfeite. É o período de abertura das bibliotecas ao grande público, e de contestação à Igreja. Como reação, surge a contra-reforma e a criação de seu Index (lista de textos e oficinas de impressão proibidos pela Igreja Católica) - e é interessante notar que ele só fez aprimorar um elenco de livros proibidos já existente. Ainda assim, o protestantismo toma força e abre as portas para o estudo individual da Bíblia, aumentando a demanda por material editorial, e consequentemente iniciando a produção de livros em massa.

O século seguinte, por sua vez muito atribulado, foi caracterizado por uma pausa, um freio no mundo editorial. O que mais se destacou foi o aparecimento dos periódicos e o crescente valor dado à técnica em detrimento da estética.

Seguiram-se os anos, a industrialização e a otimização da comunicação dos séculos XVIII e XIX. É neles que os conceitos de tempo gasto e preço de produção tomam força e espaço. Surge também a caneta, a máquina de escrever e mais vários instrumentos facilitadores da escrita, além de diversos processos de impressão, como a litografia (ou método planográfico) em 1796, por Aloysius Snefelder, e a fotogravura, em 1820, por Joseph-Nicephore Niepce – o que aliás foi também a base da fotografia. É também onde se introduz a comunicação por voz (rádio) e por imagem - fotos, e posteriormente, filmagens. Sendo que o século XIX é conhecido por sua grande importância para a história do livro, tanto em relação ao enriquecimento cultural através da difusão (aumento de produção e barateamento), quanto às questões técnicas, como tipografia, que passa de prática artesanal a indústria.

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(máquina de escrever da segunda metade do séc XIX)

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(documento datilografado - início do séc XX)

No século XX observou-se a produção em série de livros – entre os mais diversos produtos -, retomando a questão da pouca originalidade e poucos títulos individuais. O cuidado estético é ainda deixado em segundo plano, e a uniformização das obras é muito sentida. Inventa-se o Linotipo e o Monotipo, grandemente adotados pelas oficinas, e posteriormente leva-se ao mercado a telecomposição, ou seja, técnicas de linotipo empregadas à distância, como um antecessor do fax. Em 1953 o lumitipo é levado ao mercado, dispensando o chumbo, empregando por sua vez a luz - trata-se da “fotografia impressa”.

A grande produção aumenta o consumo e a difusão de produtos culturais, possibilitando o aparecimento de grupos de leitura (estilo “clube do livro”) em várias partes do mundo, além dos sebos e da propaganda dirigida a este mercado, iniciada através da criação do conceito de “best sellers”. E os meios audiovisuais de lá pra cá se tornam, cada vez mais, veículos de comunicação e difusão dos livros, principalmente através das adaptações cinematográficas das obras, à semelhança dos teatros humanistas.

É interessante ter o século XX como herdeiro do século anterior, aperfeiçoando o modelo industrial, e o período onde houve enfim a conciliação entre arte (humana) e produção das máquinas, através das novas tecnologias. No campo das impressões, a novidade deste século foi o processo Off-set, seguindo-se – depois da Segunda Guerra Mundial, com o surgimento e fortalecimento das novas escolas e tendências ousadas -, a necessidade de produção em cores e nas mais variadas superfícies, inclusive as não retas, e a solução chamada flexografia. Nos anos 70, o mercado recebeu a composer – um tipo de máquina de escrever -, que chegou aqui no Brasil pela IBM. Em seguida vieram os computadores e suas crescentes facilidades de escrita e edição.

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(máquinas de impressão off-set)


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(impressão off-set)

Assim iniciou-se o século XXI, como a época de simultaneidade entre produção e leitura. E ao mesmo tempo, como época da crise do livro, através do declínio de uma forma de cultura mais ligada à escrita, e o surgimento de outra, mais ligada à imagem. Alguns autores radicais até previram o desaparecimento da palavra escrita, por ela ser local e limitada, quando comparada à imagem, global. Mas a humanidade mostrou-se capaz de encontrar um caminho do meio, sendo uma de suas formas as histórias em quadrinhos, que buscam aliar as duas linguagens, e além delas, a publicidade seguiu tendência semelhante.

Atualmente se vive em uma sociedade de transformações vertiginosas, principalmente em relação às tecnologias da informação. Tanto em relação à tecnologia em si, quanto em relação à sua utilização por parte do público, o qual cada vez mais ansia e busca facilidades e “matadores de tempo”, principalmente através da convergência das tarefas no mínimo de suportes ou dispositivos possível – e de preferência, móvel. Neste contexto, surge o e-book, como evolução da tendência de convergência de imagem e palavra, incitando discussões e inflamando ânimos. E voltamos aqui para a questão do desaparecimento do livro em sua forma impressa, já que o e-book é mais barato, mais prático, portátil. Mas a verdade é que o futuro cabe apenas ao tempo, e por enquanto, aqui permanecemos como leitores, aprendizes do passado, agentes do presente, e quem sabe, exemplos para o futuro.


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(convergência? convivência!)



REFERÊNCIAS

Martins, Wilson: A palavra escrita - história do livro, da imprensa e da biblioteca. São Paulo, Ática, 1996.

Barraco, Helda B: Guia à historia da editoração. São Paulo, Ebraesp, 1975.

Sua Pesquisa: História da Escrita [13]

Hugo da Silva Carlos: Aspectos da História da Editoração: relações entre autoria e bibliotecas [14]


GLOSSÁRIO (referência cruzada com outros verbetes)

- escrita cuneiforme: primeiro registro de escrita silábica, originada na Suméria e datada de II a.C.

- xilografia: processo de entalhamento de bloco ou lâmina de madeira, a fim de se produzir peças ornamentadas.

- Khartés (ou volumen): rolo de papiro ou pergaminho.

- Volumen (ver Khartés)

- pergaminho: suporte de escrita feito a partir de couro animal, principalmente de cordeiro.

- Papiro: suporte de escrita feito a partir da planta de mesmo nome, originário do Egito.

- monge copista: membro do clero cuja função era reproduzir trechos da Bíblia.

- Johan Gutemberg: inventor da prensa de tipos móveis.

- a Bíblia de Gutemberg: primeiro livro impresso na prensa de tipos móveis, em 1454.

- *prensa de tipos móveis:

- *litografia:

- *fotogravura:

- *impressão Off-set:

- *flexografia:

- *composer:

  • *não vou definir aqui porque os donos dos verbetes o farão;
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