Man Ray
EUA, Filadélfia, 1890 - França, Paris, 1976
Man Ray foi o pseudônimo de Emmanuel Rudnitzky, cuja obra tem profundas ligações com o movimento Dadá. Foi também realizador cinematográfico e pintor, o que lhe trouxe à fotografia, pois comprou sua primeira câmera para fotografar seus quadros. Desenvolveu uma obra fotográfica que conjugou de uma forma criativa uma grande capacidade plástica com um enorme rigor técnico. Em suas imagens podem-se destacar o jogo de luz-sombra e composições confusas ótica-mentalmente de formas e objetos e das suas respectivas sombras . Nas séries de fotogramas apelidadas de rayographs ou rayograms são visíveis imagens que preservam a ambigüidade dos objetos expostos à luz e que incluíam a sua sombra. A execução dos fotogramas não requer câmara fotográfica, apenas uma fonte de luz sobre formas e objetos. Destaque também para os inúmeros retratos de personalidades realizados ao longo de décadas por Man Ray e de fotos de moda.
"Rayographie/Rayograph" - Fotograma, sem data:
Foto de moda, sem data:
"Pablo Picasso", 1932:
Raphael Tamburus Rissato
Trabalha o enquadramento de maneiras criativas e inusitadas, mostrando pontos de vistas extremamentes diferentes e incomuns de algo com o qual temos grande familiaridade, pessoas. Apesar disso a novidade impera em todas elas, percebe-se que ele sempre invade a naturalidade das coisas com algo artificial ou incomum, como batom, lágrimas de vidro, cílio postiços, tatuagem, máscaras e posições inusitadas. As posições, movimentos corporais e expressões faciais despertam grande interesse e admiração do observador. As luzes e as cores (PeB) contribuem para a construção de uma atmosfera séria, silenciosa, solitária, um pouco sombria, obscura e às vezes triste e angustiante. Os planos predominantes são o de conjunto, americano, médio, close e super close, dependendo da tônica que se pretende dar a imagem dos indivíduos. Não captura momentos, mas os constrói, muito ousada e curiosamente.
"Lágrimas":
É interessante como a artificialidade constroi uma falsa atmosfera angustiante. A ênfase nas lágrimas, substituindo-as por vidro, e no olhar, com o realce dos cílios, leva a um forçado e belo sentimento de tristeza. O plano de detalhe permite a visualização muito próxima dos olhos, dos cílios, da textura da pele, e das lágrimas. O fotógrafo pretende revelar a falsidade destas e suas substituições pelo vidro. Passa uma sensação maior de trsiteza e também de incômodo pela proximidade, quase uma falta de ar. Os olhos estão nos focos inferior esquerdo e superior direito dos terços. A luz ilumina a pele sem tirar-lhe a textura natural e faz as lágrimas brilharem completando o efeito.
"Beijo":
Aqui é o batom que invade a naturalidade da pele e lábios. É legal perceber a textura da pele das pessoas, a semelhança entre elas, e como a posição entre suas bocas sugere uma outra, se tranformam em uma, sem no entanto, se tocarem. Pode ser que seja um casal, por um estar usando batom e o outro não, mas isso não fica exatamente claro. Denovo a luz acentua a textura natrual da pele. Novamente o plano de detalhe é utilizado, agora no nariz e boca, para despertar a sensação de proximidade, quase que sentindo a respiração dos personagens, sugerindo um beijo que não ocorre.
"Pescoço":
Explora a naturalidade do corpo com a inusitada posição da cabeça. A bonita textura e iluminação da pele completa a beleza da fotografia. É interessante que enquadra somente a cabeça, de frente, como uma foto 3X4 e ainda assim não mostra nem um vestígio do rosto da pessoa. A sensação é de desconforto pela posição difícil da mulher, mas também carrega um certo erotismo, sendo o pescoço uma parte muito admirada pelo sexo oposto mas pouco explorada na arte de fotografia corporal.
"A rezadeira":
Denovo a naturalidade do corpo é mostrada de maneira inusitada, com uma mulher nua, num momento totalmente particular, de oração extremamente forte, pela posição constrangedora quase que de súplica. A sensação de calma da hora da reza é desmantelada pela posição de um certo desespero e pelo fato de a mulher não ter se preocupado em se vestir. Toda esta atmosfera é construída com a ajuda das cores PeB e da luz, que evidencia a mulher de deixa o resto do ambiente na penumbra. A posição das mãos da mulher pode ser um sinal de vergonha em meio a total despreocupação com a aparência, uma de tentativa de esconder suas partes íntimas, mesmo estando na sua total privacidade, completamente nua e sozinha.
"Preto e Branco":
A associação da naturalidade do rosto humano com a artificialidade da máscara é o sinal do estilo de Man Ray. O superclose permite a visualização da semelhança entre a expressão do rosto da mulher e da máscara, e a diferença de cores, aludindo talvez, às raças, é o toque especial da fotografia. A sobrancelha, os olhos, a boca, o formato do rosto, tudo é extremamente parecido, o que faz oposição ao grande constraste entre o tom das peles.
"Gelo":
Mais uma vez a naturalidade da nudez do corpo é associado a artificialidae do gelo, construindo uma metáfora de mulher derretendo. Seu corpo tem algumas partes de formato estranho sugerindo a deformação em função do derretimento. o corpo da mulher parece fundir se com sua sombra, confundindo o que é "corpo derretido" com o que é sombra dele. A luz ilumina mais as partes do corpo que ainda estão inteiras deixando as outras na penumbra. O rosto da mulher está no foco inferior direito. A sensação é de estranhamento, curiosidade, admiração, já a da personagem, contraditoriamente ao inusitado fenômeno que ocorre, é calma e serena.
"Sombra":
Novamente a nudez natural é permeada pelo desenho artificial que surge da sombra da cortina sobre o corpo da mulher, como uma roupa. O desenho se assemelha a uma pintura indígena ou à pele de um animal. Seu seio está no foco superior direito, a janela cobre o terço esquerdo e seu corpo os outros dois. A luz sugere o amanhecer, e a posição da mulher, um ato de se espreguiçar ao acordar. É curioso o fato de estar nua na frente da janela, que apesar de ter uma cortina, não a esconde completamente.
Stephanie Stamm Biglia