Jan Saudek

Repositório de trabalhos de alunos. Conteúdo experimental.

Jan Saudek nasceu em 1935, em Praga. Sua infância foi marcada pela Segunda Guerra Mundial, quando ele e um irmão foram colocados num campo de concentração nazista e presenciaram a morte de vários familiares.

Saudek começou a fotografar como amador em 1950 com uma Baby Brownie Kodak, câmera que usou até 1963, ano em que viu a mostra de Steichen “The Family of Man”. A partir desse momento, decidiu que a fotografia seria sua profissão.

A partir do final dos anos 70, ele tornou-se gradualmente conhecido no Oeste como um dos primeiros fotógrafos checos da história. Em 1983 teve seu primeiro livro publicado em língua inglesa. Seu reconhecimento lhe valeu a perseguição do governo da Checoslováquia que vivia sob o jugo da potência russa. Dessa forma, Saudek trabalhou na clandestinidade até 1984 quando lhe foi dada autorização para seguir a carreira artística dentro de seu país. Atualmente, ele vive e trabalha ainda em Praga.

O fotógrafo possui um trabalho peculiar, que extrapola qualquer delimitação que possamos tentar criar para classificar suas fotografias. O universo de Saudek chega a ser macabro e cheio de simbolismo e ao mesmo tempo poético. Os paradoxos e os contrastes são temas sempre presentes dentro de suas obras. Além disso, é importante ressaltar que, além de fotógrafo, Saudek é artista plástico e suas fotografias têm uma relação muito estreita com quadros, tornando-o quase um pintor de fotos.

Suas fotografias têm um forte apelo sexual mas, ao mesmo tempo, são extremamente artísticas pelo acentuado uso da cor, que em suas obras funcionam como forma e não somente como suporte. Saudek usa seu talento criando imagens oníricas que formam um contraponto com a realidade política e densa de seu país. Suas referências principais são aquelas imagens pornográficas feitas em estúdios do século IX, por artistas como Balthus e Bernard Faucon, além de pinturas clássicas e retratos históricos.

Para falar sobre seu trabalho é importante seguir a cronologia e observar que suas fotografias evoluíram e cresceram junto com sua vida e são marcadas pelos momentos que ele viveu. Jan Saudek disse uma vez que não tem capacidade para retratar a vida dos outros, por isso sempre retrata a sua própria.

O começo de seu trabalho é marcado pela sua evocação à sua infância, além de suas fotos serem feitas em ambiente externos, algo não muito presente no seu trabalho mais recente Sua primeira fotografia é árida e dolorida como uma vida marcada pela presença num campo de concentração. O sentimento passado é que a vida começa com a dor, sem uma palavra, apenas com sentimentos, mostra o cansaço de um jovem que tem muito caminho ainda pela frente.

My Very First Photograph (1953).jpg

Outra foto que faz referência à destruição causada pela Segunda Guerra Mundial e ao sofrimento que o artista viveu é Dawn No. 1 (1959). Suas cores quentes representam as dificuldades e a mulher nua mostra o quanto o ser humano é impotente e pequeno diante de coisas maiores como uma cidade que parece que está sendo destruída pelo lugar onde a mulher se encontrar e pela cor que a foto possui, apesar disso não estar acontecendo. A foto é completamente estática, mas as cores e a fumaça que aparecem dão uma sensação de movimento para ela.

Dawn No. 1 (1959).jpg

Mais tarde, é possível observar que o trabalho de Saudek começou a retratar sua evolução de criança para adulto, fazendo referência a trabalhos anteriores e usando os mesmos temas, porém com de uma maneira diferente, mais madura. A fotografia Childhood (1966) mostra como Saudek volta ao tema da sua infância de maneira menos dolorida, a foto possui muitas cores quentes, porém são balanceadas pelas cores frias da calça do garoto que está descansando e não agonizando. Ele é tão grande quanto o enquandramento da foto, não possui a impressão de ser pequeno como a mulher da foto anterior. Além disso, a pena branca na sua mão simboliza a paz, a tranquilidade.

Childhood, 1966.jpg

Outro fator importante dentro do trabalho de Saudek é a maneira como ele representa cada época de sua vida. As duas fotografias que seguem mostram bem esse lado do fotógrafo. A primeira mostra o quanto as pessoas eram presas na década de 60, mas estavam começando a serem mais liberais, a mentalidade contemporânea estava mudando. O fato de ser preto e branco deixa a foto parecida com uma escultura com uma textura de metal, o que torna a imagem mais dura e pesada. A segunda foto é dos anos 70, quando o socialismo começava a afundar e o capitalismo se firmava realmente. A coca-cola quebrada representa a fragilidade do sistema e ao mesmo tempo o seu poder, apesar de estar situada no meio do nada.

Those Days of the Sixties (1965).jpg

Coca-cola (1971).jpg

A partir dos anos 80, a sua obra passa a ser feita em ambientes internos feitos por ele. Ele mostra o homem através de simbolismos que retratam os conflitos humanos. Essa atmosfera é composta por imagens extremamentes gráficas e artísticas que possuem cores fortes, ambientes com fundos pintados e vestimentas elaboradas pelo próprio artista. Suas personagens são, na maioria das vezes mulheres, o homem é quase sempre representado pelo próprio fotógrafo, que dessa forma se torna o observador e o personagem de sua própria criação.

A foto abaixo relembra a infância de maneira mais doce e menos conflituosa, mostrando a maturidade e a superação da dor do artista.

First Kiss to a Little Brother (1982).jpg

A fotografia Dancers in Paradise (1986) retrata a mistura do pintor com o fotógrafo, do céu e do inferno e do paradoxo que é a obra de Saudek.

Dancers in Paradise (1986).jpg

As duas próximas fotografias, já da década de 90, retratam a violência vivida pela humanidade, que é um tema recorrente na atualidade e que Saudek consegue retratar artisticamente, sem precisar utilizar a realidade, mas sim com um ambiente construído por ele.

Goodbye Jan! (1994).jpg

Sword (1996).jpg

Outro fator interessante dentro da obra de Saudek é a utilização da sequência de fotos que relembram outras já feitas por ele.

Ladies Orchestra (2001).jpg

Ladies Orchestra2 (2001).jpg

Os trabalhos mais recentes de Saudek são menos tempestuosos, já não utilizam tanto o nu e os conflitos humanos, mas continuam possuindo a textura artística e a construção de um ambiente que retrata a realidade, sem sê-la.

Hapka & Horacek (2006).jpg

Sem artifícios, a fotografia de Saudek entra na plenitude da vida, de maneira direta e densa. Alguns de seus trabalhos entraram para a cultura popular do Oeste sendo usados como capas de CDs de artistas como Soul Asylum (Grave Dancers Union) e até como inspiração para a montagem de ambientes cinematográficos, como por exemplo no filme A Cela de Tarsem Singh.

Soul Asylum.jpg

The Cell.jpg

Para finalizar, pode-se dizer que Jan Saudek é um bom fotógrafo por conseguir aproximar a arte da realidade e confundir a fotografia com uma pintura. Além disso, ele retrata a realidade de maneira onírica, como se tudo fosse um sonho, mas na verdade não é. Ele não precisa fazer uma foto jornalística para falar o que está acontecendo no mundo. Suas cores são partes da obra, elas tem forma, elas tem vida e se não fosse por elas suas fotografias não seriam tão ricas.

--Marinatravassos 12:39, 13 Outubro 2007 (PDT)



Saudek apresenta uma série de "vertentes" em suas fotos. Ele se utiliza muito de cores, sépia, branco e preto, sensualidade e sensibilidade na composição de suas fotos.


Nessa foto, utilizando-se do branco e preto, Saudek traz como tema o respeito pelo mais velho, utilizando-se de um simples gesto de uma criança.

devotion.jpg


Suas fotos não nos deixam enfadados, mas fazem com que pensemos a respeito do que é trazido à tona em suas fotos. Nesse caso, ao mostrar a bandeira da Tchecoslováquia, ficamos imaginando quem será essa pessoa que a mantém erguida...


czechoslovakia1968.jpg


Como um trocadilho, nessa foto Saudek percebe uma semelhança que vai além do nosso dia-a-dia, tornando-a cômica.

2Big4U.jpg


O pequeno garoto levando uma bolsa nessa, o ambiente deserto, as cores que compõem a foto... tudo nos faz pensar de onde vem e para onde vai o garoto, sozinho!


davidLonelyForever.jpg


A calça remendada no joelho, o menino em cima do muro segurando uma pena... esses elementos nos fazem viajar a respeito das travessuras que esse menino já aprontou.


childhood.jpg


Essa foto é de uma simplicidade e profundidade muito grandes! A mão da senhora segurando o medalhão com a foto de um jovem rapaz... essa composição, acompanhada como a tonalidade sépia da foto nos fazem pensar em quem seria o rapaz: o marido, já falecido, ainda jovem ou um filho perdido ainda na juventude?

medallion.jpg


Nesa foto podemos perceber a mão-guia do adulto, possivelmente o pai da criança. O ângulo da foto ainda colabora para dar maior ênfase para o caminho que os dois seguem.


onTheWay.jpg


Também da sensualidade, Saudek se utiliza para criar algumas fotos.


marieNo142.jpg


Mais uma vez Saudek mostra como uma foto pode trazer muitas elocubrações de uma maneira simples e profunda.


firstSteps.jpg


A loucura é trazida à tona quando olhamos para essa foto... quem é essa mulher? onde ela se encotra? como foi parar nesse local? o que lhe aconteceu? Essas são apenas algumas das perguntas que nos vem à cabeça ao olhar para essa foto!


zdena.jpg


Saudek é um grande fotógrafo por se utilizar da simplicidade para conseguir abordar assuntos profundos. A composição de suas fotos não é sempre igual, uma vez que ele utiliza as cores, o preto e branco, lugares abertos ou fechados, com aspecto velho, depredado ou um ambiente agradável. A maestria na composição de suas fotos é evidente ao visualizarmos apenas parte de seu trabalho.


Gledsley Müller (Gepeto) --200.204.106.125 19:34, 6 Setembro 2007 (PDT)

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