Irving Penn
Irving Penn trabalha bastante com retratos e com uma espécie de arte morta. Fez várias capas para a revista Vogue, isso porque suas imagens guardam muito charme e elegância, com um toque de mistério. Em sua arte morta, traz elementos que não são necessariamente bonitos, como flores e frutas, e não são organizados como se fossem enfeitar a casa de alguém, mas ficam bastante desorganizados e até sujos, sem perder, ainda, a harmonia em sua composição. Seus retratos são bastante expressivos, às vezes tensos, às vezes misteriosos e sedutores.
Muitas das fotos são em preto e branco e a luz se torna um elemento crucial para a qualidade do trabalho.
No retrato de Banett Newman[1], Penn utiliza um close-up garantindo maior gravidade para a imagem. É um senhor sério com uma expressão também contraída. Ele fixa o olhar em algum ponto aparentemente preocupado. O cigarro é um outro elemento que acaba deixando a imagem menos monótona. Ele justifica a presença da mão de Newman na imagem, próximo ao rosto. Em preto e branco essa imagem fica mais intrigante: as sombras produzidas escondem partes de sua face dando um ar misterioso e tenso para a imagem. O monóculo também o deixa mais charmoso, pois é um elemento que remete a personagens da aristocracia. O fundo recebe uma luz difusa, deixando-o neutro na imagem e também permitindo o contraste com a sombra no rosto de Newman, que recebe uma luz mais forte e difusa, numa posição angulada (não reta e direta na face).
Na imagem de 1974[2], essa sensação de mistério também é conseguida pelas sombras produzidas na moça. Ela está de costas e isso deixa o mistério maior. “O que ela está fazendo?” é a pergunta que vem a mente. Sua roupa é bonita e elegante, e o tecido parece suave e macio, deixando a mulher mais confortável. Isso também deixa a imagem mais sensual. A postura dela aumenta essa sensualidade, auxiliado pelo leque de penas que ela carrega. Aqui também o fundo recebe uma luz difusa, garantindo o destaque para o personagem, iluminado por uma luz mais intensa.
O nu de Kate Moss[3] contém os mesmo elementos e por isso não é vulgar, mas muito charmoso e até elegante. A falta de elementos em torno dela permite que toda a sensualidade seja percebida através dela, e não por relações entre objetos e ela (uma maçã na cena mudaria todo o sentido, até mesmo uma roupa), valorizando, assim, o que a modelo tenta transparecer, o que ela é. O tom azulado da luz limita toda a sexualidade que a imagem poderia transparecer.
Em Duas Mulheres de Creta[4] de 1964, Penn conseguiu traduzir a desconfiança da senhora em primeiro plano de forma assustadora. Ela olha tão profundamente em nossa direção que parece nos penetrar, como uma bruxa olhando o nosso destino. Em preto e branco a imagem ficou mais tensa, e a brusca transição da luz para a sombra intensifica as expressões das senhoras.
Em Crianças de Cuzco[5] as sombras também são densas e, por mais adoráveis que fossem as crianças, o clima não é “fofo”. O que mais chama a atenção são suas mãos juntas no centro da imagem. Em todas essas imagens é possível perceber que Irving Penn utiliza fundos simples. Com isso ele consegue valorizar mais as pessoas, toda a atenção se volta para elas e não se dispersa num fundo bonito (ou não). A iluminação também garante isso, jogando uma luz difusa nestes fundos, trazendo o contraste para a imagem.
Mas isso não significa que ele não saiba usaroutros elementos. Em Woman in Place[6] feita em Marrocos em 1951, o fundo traz um contexto, um clima para a imagem, que não existiria se fosse mantida apenas a mulher. Ainda assim ela chama bastante atenção, pois seu rosto está em um dos terços, além de sua roupa escura contrastar com a luminosidade do fundo. O tom amarelado da luz também contribui para o clima da imagem: um lugar fresco numa cidade (ou propriedade) quente.
Irving Penn fez muitos trabalhos para a revista Vogue[7], dentre eles está esta capa de 1950. A imagem se constitui sobre o contraste entre o preto e o branco, sem muita modificação na tonalidade, e por isso é uma imagem forte. Ainda assim, a postura altiva da mulher garante charme e elegância para a imagem.
Ele não se restringia a retratos e modelos, também realizou uma espécie de arte morta. Em Street Findings[8] de 1999, mostra cigarros já consumidos, muito sujos em meio a poeira, papéis e fios, caracteristica reforçada pelo tom amarelado da luz. Seria uma propaganda antitabagista mais eficiente do que as que estão atrás de maços de cigarros. Mais anterior, a imagem Camel Pack [9]de 1975, traz o maço de Camel (marca de cigarros) destruído, dando a impressão de ser um raio X.
Ana Luiza Decloedt