História resumida da tipografia
Mariana Brizola
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[editar] Introdução
Muito antes de Johannes Gutemberg entrar para a história, os tipos móveis já haviam sido utilizados na China, primeiramente, e também na Coréia. Porém, o sistema de escrita chinês é formado por milhares de caracteres diferentes, motivo pelo qual os tipos móveis não se tornaram muito populares nesses países, afinal seria necessário cunhar tantos tipos quantos caracteres existissem, ou seja, uma infinidade. Assim, quando Gutemberg passou a utilizar os tipos móveis na Europa, onde o alfabeto possuía poucos caracteres distintos, logo revelaram-se advento de uma verdadeira revolução. A produção escrita não dependia mais de copistas, que conseguiam copiar apenas alguns poucos exemplares ao longo de suas carreiras; agora havia a possibilidade de produção em massa de textos e livros, permitindo que chegassem a muito mais pessoas.
Johannes Gutemberg[1]
As letras européias mais antigas que chegaram até os dias atuais são as maiúsculas gregas que eram gravadas em pedra. Elas eram muito finas, abertas e espaçadas. Essas letras serviram de base para as que compunham os escritos formais no Império Romano, quando surgiram as serifas. Com o decorrer dos anos, a escrita espalhou-se pela Europa, surgindo diversas tipografias e alfabetos diferentes. Os escribas monásticos contribuíram para a conservação das escritas antigas. Eles utilizavam algumas das letras antigas e rebuscadas para os títulos e letras iniciais, enquanto para os textos longos e corridos utilizavam letras mais modernas. Além disso, conheciam e aplicavam tipos de escritas diferentes de acordo com o texto que escreveriam, por exemplo, documentos oficiais distinguiam-se de cartas com fins pessoais. Foi durante a idade Méida que surgiu a letra gótica, mais aplicada em documentos oficiais.
Inscrição na Columna Trajana[2]
Livro escrito na Idade Média [3]
Tipografia gótica [4]
[editar] Renascimento e Old Style
Diferenciando-se das letras austeras e solenes utilizadas na Idade Média, durante o Renascimento, no século XV, as letras romanas possuíam características humanistas, ou seja, eram cursivas e procuravam aproximar-se da caligrafia humana, simulando o movimento da pena sendo segurada na mão direita. Eram claramente mais leves e legíveis do que as anteriores. As fontes projetadas durante esse período ficaram conhecidas como Old Style. Uma das fontes mais conhecidas desse período e que ainda é utilizada nos dias de hoje é a Garamond [5], que foi desenhada por volta de 1530 e serviu de base para a atual Adobe Garamond, gravada em 1988. Entre 1500 e 1540 surgiram as primeiras letras itálicas, originadas tanto em Roma, que possuía cultura e hábitos tão característicos que influenciavam inclusive os tipos lá utilizados, como também de outras partes da Itália, que ainda não era unificada. As itálicas possuíam apenas caixa-baixa e dizse que foram inspiradas na letra do Papa da época.
Nessa época, os tipógrafos eram homens extremamente cultos, considerados membros da elite intelectual, pois dominavam uma série de conhecimentos, tanto artísticos como técnicos. Para exercerem sua função precisavam saber sobre estética, geometria e engenharia, por exemplo. Muitos deles também dominavam vários idiomas, pois precisavam fazer traduções e criar tipos para diferentes idiomas.
Nessa imagem é possível ver a utilização da letra itálica renascentista
Tipógrafos renascentistas
[editar] Transitional e Modern
Apesar de mais leves do que as letras góticas, as fontes renascentistas ainda possuíam certas características rebuscadas. No século XVIII começaram a ser elaboradas fontes bem menos rígidas, com linhas mais finas e ondulantes. John Baskerrville é um dos impressores mais conhecidos desse período chamado Transitional, justamente por ser uma época de transição do estilo antigo para o moderno. As fontes criadas por Baskerville inspiraram Giambatista Bodoni e Firmin Didot no início do século seguinte, iniciando o estilo Moderno, última "etapa" na evolução das fontes baseadas na escrita com pena. Suas fontes possuíam eixos totalmente verticais e contraste gritante entre a transição dos traços mais grossos e mais finos, afastando-se da forma caligráfica. As serifas eram trabalhadas de modo que não mais imitassem a escrita humana, mas sim proporcionassem formas de diferenciar as famílias tipográficas. Essas fontes destacavam-se por seu rebuscamento, sendo utilizadas até hoje como símbolos de elegância e refinamento.
A fonte Baskerville
A fonte Bodoni
A fonte Didoni
[editar] Slab Serif ou Egípcias
Se as fontes de Baskerville já eram criticadas por serem ousadas demais, na segunda metade do século XIX criou-se um movimento libertário que resultou em fontes ainda mais distantes do estilo tradicional. Com as técnicas industriais mais avançadas, foi possível que os tipógrafos trabalhassem o metal de forma que conseguissem criar tipos muito detalhados e elaborados, com distorções das formas clássicas, rompendo com a tradição caligráfica. Alguns designers consideravam as fontes dessa época verdadeiras aberrações.
A Revolução Industrial exerceu grande influência sobre a tipografia, tanto quanto à técnica para fabricação de tipos como também quanto à sua finalidade, muito voltada para a publicidade, que passou por ascenssão nesse período. Foram criadas letras grandes para chamar a atenção em cartazes e anúncios. As fontes egípcias ou slab serif foram chamadas de "monstruosidades tipográficas" na época em que foram criadas, pois fugiam muito ao que era convencional, apresentando letras com serifas destacadas e retangulares.
Muitos consideram que esse foi um período de retrocesso na história da tipografia, pois as fontes deixaram de ser criadas pelo seu valor estético, seguindo uma "ditadura" dos modelos de produção em massa: elas deveriam destacar-se das demais, seduzindo e fascinando o leitor, de forma a fazer com que o produto anunciado na publicidade onde seriam utilizadas também se destacasse.
É possível perceber no jornal abaixo a profusão de fontes diferentes que eram utilizadas http://ephemerajpp.files.wordpress.com/2010/10/31-10-10-02.jpg?w=400&h=568
[editar] Sans Serif
Em reação aos exageros do século passado, no início do século XX, a tipografia passou a ser entendida por alguns como um elemento de design expressivo. Assim, deveria seguir alguns dos seus preceitos, como a funcionalidade. Diante disso, foram criadas fontes sem serifa, que não possuía utilidade real na composição, e que fossem multifuncionais, como a fonte Futura. Designers da Bauhaus criaram fontes que possuíam letras formadas por formas geométricas básicas, fugindo dos padrões exigidos pela publicidade. As letras sem serifa, após o estranhamento inicial, tornaram-se muito populares e são utilizadas largamente até hoje. O movimento Art Déco, que teve seu ponto alto na década de 30, também apoiava-se no geometrismo para a criação de novas fontes.
Cartaz da Bauhaus
Cartaz em estilo Art Déco
[editar] Tipografia Pós-Moderna
Na Virada dos anos 60 para os 70, o designer alemão Wolfgang Weingart entrou como aluno na Basel Allgemeine Style ou Escola de Basiléia,referência para a tipografia suíça nos anos 50. Porém logo depois ele acabou saindo por não concordar com a forma pela qual se davam os ensinos. Apesar de sua saída, em 1968 o designer foi convidado para ser professor na escola. Weigart destacou-se por criar tipografias extremamente expressivas e seu estilo logo influenciou diversos outros designers. Ele não utilizava ângulos retos e rejeitava a utilização de grids. Mudava o peso dos tipos na mesma palavra, criava “ruídos visuais”, que eram considerados como erros tradicionalmente.
Já no final da década de 70, o designer holandês Wim Crouwel dedicou-se a criação de um alfabeto sem diagonais ou curvas, especialmente planejado para ter exibição ótima nas telas de vídeo. Inspiradas em seu alfabeto, anos depois surgiram diversas outras fontes que aproveitavam-se dos pixels dos monitores para composição de fontes mais grosseiras e quadriculadas, que remetiam ao universo digital.
Na década de 80 foi a vez dos norte americanos se destacarem no ramo, sendo a Califórnia um dos "celeiros" da tipografia pós-moderna nos Estados Unidos. Foi criada a San Francisco School, que se opunha ao estilo mais tradicional da já existente New York School. Na cidade também foi fundado por Rudy VanderLans e Zuzana Licko o Emigre Graphics, famoso estúdio de design que, posteriormente, criou a revista Emigre.
A revista era voltada para as artes gráficas e, a partir de 1990, deixou de apresentar apenas as fontes criadas por Licko e passou a publicar tipos desenvolvidos por artistas de diversos países. Logo a revista ganhou grande popularidade, tornando-se uma vitrine dos pequenos fornecedores tipográficos digitais. Dessa forma foi possível a abertura de novos caminhos no segmento tipográfico. Emigre surgiu em 1984 e parou de ser publicada em 2005. Também no início dos anos 90, foi criada a revista Fuse, que era voltada exclusivamente para a tipografia digital experimental.
Edição Nº1 de Emigre
Edição Nº69, a última, de Emigre
Revista Fuse
Ainda é interessante citar os trabalhos de David Carson que dedicou muito de sua carreira ao design de projetos editoriais. Ele tornou-se mundialmente conhecido por seu trabalho na revista musical Ray Gun.Ele utilizava de distorções dos textos como uma forma de trazer novamente para o mundo da música a liberdade que fora perdida com a padronização dos formatos das capas de CDs.
Revista Ray Gun
[editar] Glossário
Bauhaus: Importante escola alemã de design, artes plásticas e arquitetura que funcionou entre 1919 e 1933.
[editar] Referências
1. Carlos M. Horcades. A evolução da escrita - história ilustrada. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2004
2. Community Colleges of Spokane. Graphic Design http://graphicdesign.spokanefalls.edu/tutorials/process/type_basics/type_families.htm
3. Ellen Lupton. Pensar com tipos. São Paulo: Cosac Naify, 2006.
4. Emigre Magazine http://www.emigre.com/EMagView.php
5. João Pedro Jacques. Tipografia pós-moderna. Rio de Janeiro: 2AB, 2002
6. Philip B. Meggs e Alston W. Purvis. Meggs´History of Graphic Design.
7. Robert Bringhurst. Elementos do estilo tipográfico. São Paulo: Cosac Naify, 2005.