Helmut Newton
Helmut Newton explora o nu feminino a fim de delinear suas curvas e explorar a sensualidade de cada imagem capturada, usando o preto e branco na maioria de suas fotos. A monocromia é usada para chamar a atenção para as curvas ou expressões das mulheres fotografadas, geralmente em plano geral, e distrair a atenção dos fatores inusitados que o fotógrafo coloca em meio a suas modelos.
Newton usa a regra dos terços colocando nos focos de atenção sempre os seios, genitais ou glúteos das modelos. As mulheres, quando seu corpo inteiro é mostrado, usam saltos muito altos, por vezes acessórios como meias-calça, luvas ou cordas, como elementos usados para causar estranheza ao observador. Por vezes esses elementos inusitados exaltam uma morbidez, ou outros sentimentos totalmente opostos à sensualidade proposta centralmente pela imagem.
Nesta foto, a mulher está no primeiro terço da imagem, e seus seios e genitais estao nos principais focos de interesse. O salto alto deixa as pernas mais compridas, dando mais sensualidade, e a posição, virada para a direita, dá dinamismo à imagem, dando a impressão que seu olhar sensual será seguido de uma atitude de movimento em direção a um observador oculto. No entanto, alguns fatores inusitados diferenciam esta imagem do que se espera de uma foto sensual, como as chaves no canto esquerdo e a parede inclinada no direito. Esses fatores fazem parece que a modelo está do lado de fora da porta, mas sem preocupações quanto a sua nudez.
Aqui, a ausência de cor e os acessórios ajudam a dar o tom inusitado, meio fora-da-lei, como o cigarro na boca e os rasgos na meia-calça. A fantasia de coelho coloca a sensualidade, estranhamente maléfica da personagem. Nos focos de atenção estão os seios, e o enquadramento em plano americano da modelo associado ao plano geral da cidade, em segundo plano, exibe uma liberdade proposta ao observador, como se estivesse "acima" da lei. O contraste entre a imagem do coelho, animal dócil associado à delicadeza, com os outros objetos da cena, como o cigarro, são o principal fator de estranhamento dessa fotografia.
Nesta outra, à direita, a sensualidade se mostra na preocupação da modelo com o decote a realçar seus seios, como de uma viúva ao túmulo de seu marido. Numa observação inusitada, seu olhar parece tão concentrado em sua tarefa que não percebe a presença do fotógrafo, como numa ação de tentar esconder do túmulo logo atrás o que está planejando. A mulher ocupa predominantemente o último terço da direita na imagem, e novamente os seios estão no foco de interesse. O preto-e-branco sugere morbidez, enquanto o plano americano causa estranheza por colocar em evidência a relação entre a modelo e o túmulo em segundo plano.
Aqui, a mulher ocupa o primeiro terço da imagem, com suas nádegas no foco de interesse.O salto alto deixa seu corpo ainda mais longelíneo, dando mais sensualidade. Alguns elementos causam estranheza ao observador, como a porta aberta para a rua e os carros do lado de fora, mesmo com a completa nudez da modelo. Outros elementos conflitantes com a posição sensual da modelo são a observadora à direita, com expressão de naturalidade e certo tédio diante da produção fotográfica, e as pernas de outra modelo que surgem sem corpo à esquerda da imagem.
Nesta foto, a composição confunde o observador, pois não se sabe à primeira vista quais imagens estão projetadas e quais são de pessoas presentes na fotografia. As que parecem presentes, na parte inferior, observam a mulher nua como que surpresos ao vê-la ali. Sua expressão é de quem acabou de ser notada ou acabou de chegar ao local. Seus seios ocupam novamente um foco de interesse da imagem, enquanto o filme projetado sobre seu corpo nos remete à uma situação de guerra, totalmente conflitante com sua situação de nudez. A alusão à guerra causa ainda estranheza no chapéu que a modelo carrega na mão direita, como se por todos os lados fosse cercada por uma batalha e obrigada a fazer parte dela.
Esta imagem nos oferece muitos fatores de estranheza. A posição inusitada da modelo, ocupando predominantemente o primeiro terço da imagem, nos remete a uma situação de submissão, enaltecida pela corda no pescoço. Usada muitas vezes como elemento de fetichismo, a corda nesta fotografia nos gera dúvida quanto a sua finalidade, mesmo porque não se pode ver o rosto da modelo para analisar sua expressão facial. Suas nádegas ocupam um dos focos de interesse, enquanto no oposto está um espelho que incita a curiosidade pelos outros elementos componentes do ambiente fotografado. O telefone no canto nos leva a imaginar que a modelo esteja esperando uma ligação. As botas usadas também trazem dúvida se a mulher foi despida às pressas ou se seria outro elemento de fetichismo.
Essa fotografia nos chama a atenção por relacionar a agressividade do cão com a modelo. Isso acontece por meio dos cabelos avolumados e da posição assumida por ela, de pernas abertas e joelhos flexionados, a mesma do cachorro, como num espelho. Suas curvas são acentuadas pelo fato de sua cintura estar no foco de interesse e, ainda, pelos seus seios levemente à mostra no decote. No entanto o elemento de maior estranheza é a vegetação em volta das personagens, "flores" pontudas. O contraste dessas plantas com flores esbranquiçadas à direita dá ainda mais agressividade à fotografia, e as maiores saltam aos olhos como se quisessem vir para mais perto do observador. O plano geral coloca mais dessas plantas ao redor da modelo.
Jéssica Diniz Silva