Funcionalidade vs. estética
Mariana Travieso Bassi
[editar] Funcionalidade x Estética: amor ou ódio?
Duas características fundamentais do design e da própria vida humana, dois fatores ora excludentes, ora complementares, dependendo de quando e por quem são abordados. Mas afinal, como “função” e “estética” são definidas? Quais argumentos são usados pelos dois lados? E o que fazer para evitar que gostos pessoais se passem por elas, e interfiram na avaliação de projetos bem pensados? Neste verbete tentaremos responder essas perguntas, sempre considerando que, por se tratarem de conceitos que tem um lado subjetivo muito forte, são passíveis de outras – novas? – interpretações. Portanto cabe a você, leitor, usar isto aqui como um exemplo, ir atrás de mais fontes, e assim formar o seu próprio ponto de vista.
Comecemos então pelas definições. E delas, que venha primeiro a da “funcionalidade”.
Assim como não poderia deixar de ser, funcionalidade vem de função, ou seja, em que certo objeto pode ser útil, e mais o que isso, se ele serve à tarefa para a qual se propôs ou foi proposto. E nada mais simples, pois ao comprarmos ou fazermos alguma coisa, queremos que esse algo nos sirva de algum modo – e, preferencialmente, do modo que idealizamos. Para a história do design, essa característica tomou real força no início do século XX, como lema da Bauhaus: “a forma segue a função”, onde a utilidade estava acima da aparência, sendo esta mera conseqüência da primeira. Neste momento, as peças produzidas – desde xícaras até prédios - têm como objetivo principal a simplicidade, o que é fielmente traduzido pelo outro lema da escola: “menos é mais”. E essa mudança de padrões foi tão forte, que, mesmo sendo uma escola que durou pouquíssimo tempo – por volta de 30 anos -, as formas e filosofias propostas são vistas até hoje, com pouquíssimas variações, em lojas e ambientes mais “clean”, como a Tok&stok ou a fachada prédio central da ECA.
(Bauhaus: uma cadeira funcional)
Agora, não sei se vocês perceberam, mas esta filosofia deixa implícito que estética é somente “mera aparência”, “excesso” ou ainda “conseqüência da função”. Mas não seria injusto ela ser reduzida a isso, apenas? Então como ela pode ser definida? Originalmente, a estética representa um ramo da filosofia que se propõe a estudar o belo e os fundamentos da arte. Ao longo do tempo, com a especialização das ciências, ela foi tanto adaptada - como na psicologia, onde passa a ser a reação que o belo e as artes geram no indivíduo -, quanto ampliada pela própria sociedade, chegando a ser sinônimo de tudo o que embeleza a existência do ser humano. Sendo um conceito mais subjetivo que o primeiro, possui hoje várias interpretações e utilizações, mas sempre guardando uma raiz comum: o belo.
(estética: o estudo do belo)
E aqui há que se tomar muito cuidado: ela não é sinônimo de “gosto”. Segundo o filósofo Kant (1790), o belo é universal e objetivo - algo comum a todos -, diferente do gosto, que por sua vez é ligado a questões culturais, de aprendizado e de classe social – portanto individual. Outro estudioso, David Hume (1757), completa essa definição, defendendo que a primeira é a capacidade do indivíduo de justificar as razões que o fazem gostar de algo – colocando então o gosto como influência do belo. Disso, podemos perceber que, ao contrário do que se pode acreditar, o belo não é (ao menos não totalmente) subjetivo, mas sim passível de análise e explicação prática. Ou seja, você pode justificar uma preferência pessoal a partir do conceito de belo, e não somente pelo tradicional – e pouco eficiente – “porque eu gosto”.
Agora que definimos os dois conceitos, está na hora de ver como eles se encontram – e se enfrentam – no palco do design. Por ser um movimento que lida diretamente com as artes e as preferências de gerações - assim como a moda ou os movimentos literários -, o design também possui momentos de maior simplicidade, alternados com os de destaque à forma diferenciada. E sendo ramos de estudo, ou como se diz, escolas, ambos os lados apresentam bons argumentos para defender seus pontos de vista. Quais? Bom, aqui vai alguns deles:
Certos grupos – mais especificamente os ligados à filosofia funcionalista, originada nos séculos XIX-XX - colocam a função do designer como esclarecedor e simplificador do trabalho, e não embelezador. A essência desse tipo de atividade, diz Donald Norman (1988), é estabelecer padrões a serem seguidos, devendo, portanto, ser algo frio e direto. E, quando o design tenta ser arte, Philippe Starck (2009) completa, ele se torna caro, inútil e até às vezes perigoso. Sendo que, atualmente, pelo cotidiano corrido das pessoas e pela enxurrada diária de imagens que se propõem a serem belas e gritam por atenção, a simplicidade é de extrema importância, oferecendo um alento, tanto pela forma quanto pelo manuseio instintivo e rápido dos produtos – segundo Djon de Moraes (1997).
Porém, ao virarmos a moeda e olharmos para seu outro lado, temos que os humanos são seres emocionais e se interessam por coisas que lhes transmita algo a mais do que a mera função, diz Antonio Damasio (2006). As pessoas se interessam sim, Donald Norman (2002) diz, por objetos que lhes transmita emoções, proximidade. Assim, Ligia Fascione (2008) defende, design pela função apenas não é design, é engenharia – pois ela também oferece projeto e funcionalidade. E, no contexto atual, há tanta oferta de produtos e serviços com funções parecidas, que eles necessitam de um destaque, de uma identidade própria que os aproxime dos objetivos e das preferências de seu público – é o que diz Domenico de Masi (2000).
Não sei se vocês, de tudo isso que foi dito, prestaram atenção nas datas dos argumentos, mas de qualquer modo, elas não estão ai por acaso, já que revelam o conceito de estética em design como algo que foi trazido à discussão bem mais recentemente que a funcionalidade – devido ao já sabido cenário de concorrências, quase que semelhantes, tentando ganhar o coração e o bolso do público. E, agora focando nos argumentos em si, podemos confirmar que – mesmo os mais radicais - permitem um diálogo, uma interação saudável entre os dois lados: enquanto a funcionalidade é o objetivo, o que o cliente deseja passar, a estética é o chamar a atenção, a proximidade e o diálogo com o público. Ou seja, não se trata de lados excludentes, mas sim complementares. Claro, na prática, segundo as intenções da peça, sempre um ou outro se destacará, mas – ao menos em trabalhos de boa qualidade -, os dois se farão presentes.
Para se atingir o objetivo supremo de um trabalho de boa qualidade, há sim uma chave, uma estratégia simples de se propor, complicada de se praticar, e muito – muito! – útil na realização da peça de design: o saber o que e para quem se quer falar. Trata-se da definição de preferências, hábitos de vida e de consumo, e a partir disso o estabelecimento da melhor linguagem a ser utilizada – tanto escrita quanto visual. E aqui retomamos tudo o que foi dito antes, agora aplicado na prática dos estudos e dos freelas, resumido em um ponto crucial: a grande diferença existente entre os argumentos de uma escola, ou o foco de um trabalho, e a opinião de alguém guiado apenas por seu gosto pessoal. É exatamente essa a linha tênue entre um trabalho bom e um trabalho marcante: o conhecimento, a pesquisa e o estudo. Estudo este, aliás, das várias escolas e pontos de vista, mesmo dos que não se gosta ou não concorda. Porque só assim você conseguirá construir bases sólidas de crítica, e então propor, realizar e avaliar uma obra de design, sabendo explicar clara e objetivamente suas razões de escolha entre um (e) ou outro caminho, para um cliente que nem sempre sabe de termos e razões técnicas – e muito menos dos conflitos existenciais entre forma e função.
Em um plano mais geral, o que este objetivo não é além da verdadeira alma deste livro?: uma coletânea de informações sobre o design, para que você, leitor, conheça e construa suas primeiras bases, sólidas, e parta daqui para um maior aprofundamento já embasado, ou seja, sabendo o que e onde procurar. E, levando em conta sua opção de carreira – se for esta mesmo -, este é o primeiro passo para, futuramente, você não ser seja apto a apenas fazer, mas também avaliar uma obra com propriedade. No meio de tantas vertentes, escolher seu ponto de vista, mas nunca deixando que ele encubra – ou até atrapalhe - sua avaliação de uma boa peça.
(exemplo de mau design: não se adequa à função proposta, é desconfortável)
(exemplo de design funcional e estético: útil e agradável aos olhos)
(exemplo de design majoritariamente funcional: não é esteticamente marcante, mas é útil, pois além de suas funções básicas de mouse ele esquenta a mão)
REFERÊNCIAS:
Bauhaus online: 200 Years of Form Follows Function [6]
Limites do Design, por Dijon de Moraes [7]
BELT.ES: Entrevista com Antonio Damasio [8]
UXmatters.com: Personas, Goals, and Emotional Design [9]
espaço.com/design: O design e a engenharia [10]
GLOSSÁRIO:
- Funcionalidade: o objetivo prático do design (para que a peça servirá?);
- Estética: a forma de diálogo com o público, o destaque da peça de design;
- O belo: conjunto de padrões universais que agradam a percepção humana;
- Gosto: conjunto de padrões de preferência individuais;