Estilos tipográficos e classificação

Repositório de trabalhos de alunos. Conteúdo experimental.

Tema desenvolvido por Camila Augusta Ferreira.

Tabela de conteúdo

[editar] Apresentação

Este capítulo é destinado a explicar por que é necessário classificar as famílias tipográficas. Vamos apresentar algumas tentativas de classificação, as dificuldades encontradas e, além disso, o capítulo vai mostrar por que o estudo da tipografia e das classificações tipográficas nos ajuda a escolher uma fonte ideal.

[editar] Desenvolvimento

A quantidade de famílias tipográficas existentes é imensa. Algumas existem há mais de quinhentos anos, outras surgiram na grande explosão criativa dos séculos XIX e XX e, com o advento das tecnologias digitais, temos muitas outras famílias tipográficas surgidas muito recentemente. Diante dessa infinidade de opções, é extremamente útil ao trabalho de um designer dispor de um sistema de classificação de tipos que o ajude a saber de antemão algumas informações sobre as fontes para que não seja necessário passar por todas as opções existentes para escolher um tipo. Assim, sistemas de classificação de tipos surgiram para padronizar termos confusos e às vezes até mesmo contraditórios utilizados para descrever as fontes em diferentes países, gráficas e oficinas tipográficas. Diversos tipógrafos e estudiosos da tipografia propuseram tentativas de classificação. Nesse capítulo abordaremos apenas algumas classificações mais importantes e relevantes.


TENTATIVAS DE CLASSIFICAÇÃO TIPOGRÁFICA


Francis Thibaudeau

Em 1921, o tipógrafo francês Francis Thibaudeau propôs um sistema de classificação de fontes baseado em um detalhe existente no “pé” de algumas letras, a serifa. As fontes foram divididas em 4 grandes famílias: Bastão, Egipciana, Elzevir e Didot.

  • Bastão ou Antigas – São fontes que não apresentam serifa. A ausência de certas serivas confere uma distância natural às letras e as tornam as mais legíveis.
  • Egipciana – São fontes com aspecto sólido, tem base notadamente retangular. Sua solidez e a predominância do preto sobre o branco em sua construção a torna o menos legível dos caracteres gráficos.
  • Elzevir – Possuem serifas triangulares e são fontes elegantes e com um caráter clássico. A distribuição entre os traços finos e grossos a tornam bastante legível.
  • Didot – Possuem serifa de traço fino e são conhecidos pelo exagero entre o fino e grosso em sua construção.

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De todas as tentativas apresentadas aqui, esta é a mais genérica pois sua grande contribuição está em separar as fontes serifadas das sem serifa.

Maximilien Vox

Um dos mais importantes sistemas de classificação é o proposto pelo tipógrafo e educador francês Maximilien Vox em 1954. Sua classificação divide as famílias tipográficas em 9 grupos levando em conta personagens e eventos importantes da história da tipografia além de aspectos formais das letras:

  • Humanistas – modelos típicos dos séculos XV e XVI, possuem serifas apoiadas (com uma curva entre a haste e a ponta da serifa), traços e hastes mais inclinadas para a esquerda. Exemplo de fonte: Italian Old Style.
  • Garaldinas – também são modelos típicos dos séculos XV e XVI, possuem serifas apoiadas (com uma curva entre a haste e a ponta da serifa), mas possuem traços e hastes retos. Exemplos de fonte: Garamond, Caslon.
  • Reais - fontes com serifas apoiadas e contraste vertical.Fazem transição entre as serifas antigas (humanistas e garaldinas) e as serifas modernas (didônicas). Exemplos de fonte: Baskerville, Bookman, Times New Roman.
  • Didônicas – corresponde à classificação Didot de Thibaudeau. Exemplos de Fontes: Bell, Bodoni.
  • Mecânicas – corresponde à classificação Egipciana de Thibaudeau. São marcantes, sólidas, pesadas, com destaque nas serifas. Exemplos de Fontes: Century SchoolBook, Courier.
  • Lineares – corresponde à classificação Bastão de Thibaudeau (sem serifa). Exemplos de fontes: Franklin Gothic, Helvética.
  • Incisas – são pontiagudas, baseadas na escrita romana gravada em pedra. Exemplos de fontes: Augustea, Albertus.
  • Manuais – se assemelha a uma escrita desenhada, não é destinada a textos corridos, mas sim pequenos títulos. Exemplo: Arnold Böcklin, Stencil.
  • Escriturais – se assemelha a uma escrita cursiva. Exemplo: Roundhand

A classificação de Vox admite ainda que os tipos são suscetíveis a interrelacionamentos estilísticos. Uma análise sobre esta classificação nos permite afirmar que ela é bastante precisa a respeito das letras serifadas para texto, mas bastante vaga para as letras não serifadas, e para as letras de títulos em geral. A maioria das classificações posteriores a Vox fazem referência a sua proposta.

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Vox ATypI

A ATypI é a Associação Internacional de Tipografia (Association Typographique Internacionale) e com o objetivo de estabelecer uma classificação geral das famílias tipográficas, realizou em 1962 uma adaptação da proposta de Maximilien Vox incluindo duas novas classes:

  • Fraktur – fontes variantes do estilo gótico. Estão na transição entre o estilo Gótico e o Renascentista. Exemplo de fonte: Claudius, Breitkopf- Fraktur. Na imagem abaixo, a letra de cima é uma Gótica e a de baixo é uma Fraktur

Gotik-Fraktur.jpg [3]

  • Orientais – famílias com caracteres não latinos, independente de seu estilo. Exemplos: árabes, japoneses e cirílicos.

mp9_tanjas-cyrilic-regular_1.png [4]

Assim como algumas das classes de Vox, essas duas adicionadas pela ATypI também podem ser consideradas bastante vagas. Essa é a classificação mais utilizada hoje.


British Standards

Assim como a ATypI, a British Standards Institution também baseou seu sistema no que foi proposto por Vox. O projeto foi apresentado em 1967 e ficou conhecido como BS 2961. Na realidade, as classes propostas por VOX foram renomeadas, mas a classificação permaneceu da mesma forma. A relevância do estudo foi acrescentar 4 subclasses à Classe das Lineares:

  • Linear Grotesca - letra sem serifa contrastada e pesada, típica do século XIX. Exemplo de fonte: Franklin Gothic.
  • Linear Neo-Grotesca - letra sem serifa mais simples e regular, típica no século XX. Têm desenho cuidadoso e preocupação com a legibilidade. Exemplos de Fontes: Arial, Helvética.
  • Linear Geométrica - letra sem serifa extremamente geométrica e racionalista. Passou a ser difundida na década de 1930. Exemplo: Futura, Century Gothic.
  • Linear Humanista - letra sem serifa com detalhes curvos ou caligráficos. Exemplos de Fontes: Frutiger, Gill Sans.


Catherine Dixon

Em 2002, Catherine Dixon atentou para o fato de que os sistemas mais utilizados, o Vox-ATypI e o BS 2961, não haviam sido atualizados desde a década de 60. Uma reformulação era necessária por conta da tecnologia digital que permitiu o aparecimento de diversos tipos de fonte. Ela utilizou como base o sistema BS 2961 e, assim como a British Standards fez com a classificação de Vox, Catherine renomeou algumas classes, mas manteve as mesmas características. As contribuições dela foram:

  • Acrescentar mais uma subclasse à Classe das Lineares: a subclasse Lineares Problemas.
  • Subdividir a Classe das Escriturais, agora renomeadas como Caligráficas, em:
    • Ornamentais - floreios tomam conta da estrutura.
    • Curvilíneas - combinações de curvas e linhas altamente estilizadas, independente da presença de serifas.
    • Processadas/Manipuladas – a aparência resulta de um processo de distorção tecnológica.
    • Sampleadas - resultam da combinação de elementos extraídos de outras fontes.
    • Emulativas - simulam o efeito de algum tipo de processo de impressão diferente daquele que de fato são.
  • Inclusão da classe das Góticas - Exemplos de Fontes: Fette Gothic, Old English.
  • Inclusão da Classe de Dingbats/Símbolos/Ornamentos

O trabalho de Catherine Dixon apresenta uma classificação mais completa das fontes sem serifa, mas deixa a desejar nas fontes Góticas e Dingbats, que mereciam subclassificações.


AS DIFICULDADES NA CLASSIFICAÇÃO

Todas essas tentativas de classificação nos faz refletir sobre as dificuldades que existem para classificar as diversas famílias tipográficas: alguns estudiosos aprofundam uma classe, mas deixam a desejar em outras; há muitos nomes para designar uma mesma classe de fonte; quando tentamos conciliar em um único estudo todas as classificações existentes, percebemos que elas são incompatíveis e até incoerentes juntas:

hirZN.jpg [5]

Os trabalhos que dispomos para classificar os tipos ainda podem ser considerados muito limitados e é nítida a necessidade de haver uma atualização da classificação tipográfica. Para Jonathan Hoefler, importante designer norte-americano, elaborar um sistema de classificação tipográfica é uma tarefa “infinitamente complexa, que requer a sensibilidade de numerosas disciplinas”, entre eles a história, os aspectos técnicos e estéticos da tipografia.


CRITÉRIOS PARA ESCOLHA DE UMA FONTE


Apesar dos sistemas de classificação disponíveis serem um pouco confusos e limitados, o estudo dos mesmos é de extrema importância para o trabalho do designer. A tipografia surgiu como uma forma de transmitir visualmente a linguagem verbal, mas hoje transmite idéias e informações não só por meio do significado das palavras impressas, mas também pelos aspectos estruturais da fonte escolhida. A escrita gráfica deve concordar com o teor do pensamento escrito, por isso “quando o tipo é mal escolhido, aquilo que as palavras dizem linguisticamente e aquilo que as letras inferem visualmente são dissonantes, desonestos, desafinados” (BRINGHURST, 2004).

cartaz%2B4.png [6]

Desafinado é exatamente o que podemos dizer deste cartaz de reggae: o cartaz convida a curtir o som de uma banda cover do Bob Marley e, para isso, utiliza uma fonte Gótica. As fontes góticas são angulosas, com linhas quebradas, criadas na Europa durante o período medieval e nada tem a ver com o contexto do Show de reggae, Bob Marley, clima anos 70. Mesmo que uma pessoa, ao ver este cartaz, não percorra este raciocínio para explicar logicamente que há dissonância entre o que o cartaz quer dizer e o que a fonte escolhida infere, ela percebe que algo está errado, fora do lugar.

Por isso é tão importante conhecer o contexto histórico e cultural em que cada fonte foi criada e seus usos comuns para verificar a compatibilidade da mesma com o conteúdo expresso e com o público que receberá a mensagem. O conhecimento dos estilos, das características e das possibilidades expressivas de cada tipo de letra facilita sua seleção. Agora veja como este cartaz, com uma fonte que remete às décadas de 60 e 70, nos apresenta uma unidade entre o que está escrito e o tipo escolhido:

http://img2.mlstatic.com/jm/img?s=MLB&f=169285504_8503.jpg&v=O [7]

Perceba também como uma fonte gótica, mal utilizada no primeiro exemplo, fica harmônica dentro de seu contexto correto:

Valle_de_espadas.jpg [8]

Outro exemplo de escolha de tipo adequada ao conteúdo: Uma fonte caligráfica para expressar um concerto de Música Clássica.

SDT0000231_P.GIF [9]

Sendo assim, a tipografia é uma peça-chave em um projeto gráfico “pois ela contribui para delinear a personalidade de todo o conjunto dos elementos que o formam. Sendo fundamental em um sistema de comunicação, a tipografia torna-se um emissor que transmite mensagens, que serão recebidas pelo receptor.” (FUNK & SANTOS). Só o estudo detalhado da tipografia pode conferir ao designer a solidez necessária para sustentar seu projeto e fazer dele uma composição sugestiva e eficaz.

[editar] Glossário

Serifa – pequenos traços e prolongamentos que ocorrem no fim das hastes das letras.

[editar] Fonte

Planejamento Visual Gráfico, Milton Ribeiro. LGE Editora, 2007

Tipografia na Identidade Visual publicado em 13/12/2010 por Dionei Serino. http://www.webartigos.com/articles/54640/1/Tipografia-na-Identidade-Visual/pagina1.html#ixzz1NhvhMK00

Um panorama das classificações tipográficas. Artigo de Fábio Luiz Carneiro Mourilhe Silva e Priscila Farias http://www.eduardosy.com.br/public/cv2006/sem2/tipografia/panorama_classificacoes.pdf

Classificação tipográfica: parte I http://blog.ornitorrincos.com/2009/03/01/classificacao-tipografica-parte-i/

Classificações tipográficas: sistemas de classificação cruzada. Artigo de Fábio Luiz Carneiro Mourilhe Silva e Priscila Farias http://www.eduardosy.com.br/public/cv2006/sem2/tipografia/classificacoes_cruzadas.pdf

Classificação das famílias tipográficas http://tiposeclasses.hd1.com.br/

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