Diane Arbus

Repositório de trabalhos de alunos. Conteúdo experimental.

[editar] Diane Arbus

[editar] Breve histórico

Erro ao criar miniatura: Unable to run external programs, passthru() is disabled.
Homem jovem com bobes

“Para mim o sujeito de uma fotografia é sempre mais importante que a fotografia. E mais complicado...” – Diane Arbus

Nascida em 17 de março de 1923 (falecendo em 26 de Julho de 1971, por suicídio), a fotógrafa norte americana Diane Arbus apresenta-se como uma das mais importantes fotógrafas de sua época. Durante sua produção, adotou um estilo diferente do convencional "modelos bonitos em paisagens bem construídas". Suas obras quase sempre apresentavam como modelo pessoas comuns em situações diferentes, inusitadas, e às vezes até polêmicas.
Ao fotografar dessa forma não convencional, em dados momentos optava por utilizar-se de pessoas marginalizadas como modelo (como em Homem jovem com bobes, onde há um homem vestido, maquiado e produzido como mulher posando para a foto, fato tratado com extremo preconceito durante o tempo em que Diane viveu), relatando à sociedade que não só de imagens "bonitas" vivia o mundo, e que havia arte a ser retratada em pessoas que não eram as mais belas quando relacionadas aos critérios vigentes de estética visual.
Outra característica da fotógrafa, também relacionado ao fator "espontaneidade", era o de não produzir panos de fundo ou paisagens exóticas para suas obras, escolhendo locais inerentes à vida dos modelos escolhidos (como um garoto no parque ou um homem na casa de seus pais). Dessa forma é possível notar em suas imagens um nível de simplicidade e naturalidade (mesmo nas fotografias com pose), o que faz com que o observador adquira um grau maior de empatia com aquilo que vê.

[editar] Técnicas e algumas obras

Tecnicamente, a fotógrafa utilizava-se de imagens claras e bem nítidas, com enquadramento quase sempre central daquilo que julgava o mais importante em suas fotografias: o modelo. Como trabalhava com imagens em preto e branco, não possuía expressividade no quesito cores, mas as variações de luz aplicadas a cada obra permitem ao observador notar como é o ambiente (se o clima é pesado, leve, triste, alegre), permitindo a esse observador adequar-se ao universo em que foi tirada a fotografia e entender o contexto de forma mais clara.
Quanto à utilização dos terços, a Diane capturava imagens de forma estática. A centralização dos modelos realmente consegue fazer com que eles se tornem o objeto principal da observação, entretanto o enquadramento sempre no terço vertical central acaba deixando algumas das fotos um tanto quanto imóveis.


Garoto no Central Park com granada de mão

Garoto no Central Park com granada de mão

Como exemplo de sua obra, observemos a fotografia intitulada Garoto no Central Park com granada de mão. Nessa imagem, é possível se perceber que o modelo é um garoto comum, em um lugar comum que deve fazer parte de sua vida: um parque (que pode estar localizado ou não nas proximidades da casa desse menino). Ele se veste de maneira cotidiana, e faz uma careta ao ser fotografado. Em sua mão direita, nota-se o objeto que dá nome à foto: a granada.
Embora tratar-se de uma fotografia comum, há o elemento contrastante com a calma do parque, além de o garoto portar uma arma de grande destruição. Percebe-se, dessa forma, a característica marcante de Diane, que fotografa um momento comum transformando-o em algo diferente, que pode ser especialmente bonito ou especialmente polêmico. A não representação do falso, do idealizado, esse é o propósito das fotografias de Diane Arbus: mostrar uma realidade que grande parte das pessoas procura disfarçar, esconder.
Quanto ao enquadramento e o uso dos terços, pode-se perceber a centralização do modelo no terço vertical central, o que gera a impressão de que tanto o garoto quando o parque estão congelados, que naquele momento em que a fotógrafa disparou a máquina o tempo parou por alguns milésimos de segundo. Essa estaticidade pode apresentar efeitos bons ou ruins no observador, pois ao mesmo tempo em que congela uma cena única de forma primorosa (pois eterniza o momento) pode também acabar gerando uma situação monótona, que não irá despertar o interesse do observador (e, nesse caso, sua obra não terá a repercussão por ela desejada). Felizmente, o recurso de centralização utilizado por Diane gera o primeiro efeito, e suas obras realmente funcionam como um congelamento do tempo, a representação de uma fração de segundo que por um instante parou para que a fotógrafa pudesse eternizá-la.
O uso da luz, por sua vez, acaba satisfazendo a necessidade de ambientação do observador que é prejudicada algumas vezes com as fotos preto e branco. Nessa foto em particular pode-se perceber que o dia está ensolarado e algumas pessoas passeiam pelo parque enquanto o garoto posa para Diane na sombra de uma árvore grande. Nesse contexto de dia ensolarado pode-se deduzir que talvez o garoto estivesse brincando pelo parque quando a fotógrafa o abordou e o convidou a ser modelo.
Em síntese, trata-se de uma boa obra, em que a autora reuniu uma boa história com boas técnicas de fotografia, conseguindo ser ácida e sutil ao mesmo tempo.


Homem reformado com sua mulher em casa num campo de nudismo de manhã

Erro ao criar miniatura: Unable to run external programs, passthru() is disabled.
Homem reformado com sua mulher em casa num campo de nudismo de manhã

Nessa obra, Diane trabalha um tema trabalhado por muitos pintores, fotógrafos, desenhistas, enfim, artistas em geral: o nudismo.
Entretanto, fugindo do estereótipo da criação de poses e idealização de formas, a fotógrafa representa aqui um casal nu muito provavelmente na sala de sua casa. A dupla não representa nenhum dos padrões idealizados de beleza (homem com músculos bem definidos e perfeitos e mulher com curvas bem delimitadas), ao contrário, mostra aquilo que representa o que a maioria esmagadora das pessoas são e possuem: formas não tão perfeitas e corpos nem sempre atraentes para aqueles que seguem a estética da beleza (que por sinal muda a cada dia, estando nos dias de hoje caminhando pela magreza das mulheres e o porte atlético dos homens).
A luz utilizada mostra que há um belo dia do lado de fora da casa, pois o sol invade a sala através da porta e da janela. O casal apresenta-se bem iluminado e nítido, bem como todo o resto da casa (decorada de forma simples, por sinal, mas nem por isso menos admirável).
A dupla parecia estar conversando calmamente numa manhã de fim de semana, quando de repente a fotógrafa resolveu aparecer e disse "ei, vamos tirar uma fotografia!" e nesse dado momento, assim que as pessoas se viraram (sem tempo para poses ou sorrisos falsos) a fotógrafa deu o clique, e registrou o momento de forma espontânea (uma outra impressão que pode ser apreendida da imagem é a de que as pessoas viraram-se por livre e espontânea vontade, e calhou de a fotógrafa estar ali, com a máquina em mãos no exato momento da virada).
Mas talvez o mais fascinante dessa obra seja a espontaneidade presente no nu. Nessa imagem as pessoas parecem não se importar com o fato de não estarem vestidas, ou ainda não se importam com as roupas, agindo como se as estivessem vestindo. Claro que o fato de a foto ser tirada num campo de nudismo explica bem a situação, mas registrar o momento de forma tão natural exige um bom trabalho, que Diane Arbus exerce com maestria nesse caso.


--Diego Santos 17:43, 9 Dezembro 2007 (PST)




DIANE ARBUS


Diane Nemerox nasceu em Nova York no dia 14 de março de 1923 e cresceu no Central Park West. Seu pai possuía uma loja de departamentos na 5a Avenida. Aos 14 anos Diane conheceu Allan Arbus, com quem ela se casou quatro anos depois. Foi com Allan que Diane tomou gosto pela fotografia. O Casal trabalhou em diversas revistas de moda, além de fazer uma campanha publicitária para a loja de departamentos do pai de Diane. Contudo, depois de se separar de Allan, Diane resolveu seguir um caminho próprio. Foi então que estudou com Alexey Brodovitch, Richard Avedon e, principalmente, Lisette Model que teve influência decisiva no estilo da fotógrafa. No início dos anos 60 Diane deu início à carreira de fotojornalista e publicou na Esquire, The New York Times Magazine, Harper`s Bazaar e Sunday Times, entre outras revistas. Por esta altura, escolheu uma máquina reflex de médio formato Rolleiflex com dupla objetiva, em detrimento das máquinas de 35 mm. Com a Rolleiflex teria “vistas largas”, mais resolução e um visor à altura da cintura que lhe proporcionava uma relação mais próxima com o fotografado.

Apesar de pertencer a uma família da alta burguesia e de ser fotógrafa de moda, Arbus optou, como novo trabalho, por fazer de sua arte fotos despojadas de qualquer glamour. Para tanto, fotografou obsessivamente os freaks dos porões de uma Nova York triunfante, onde a ordem moral vigente determinava, através de dispositivos legais do município, a repulsão de pessoas inconvenientes à limpidez das rotas turísticas da cidade. Assim, indigentes, prostitutas e outros "maus elementos" foram varridos para as zonas periféricas, evitando qualquer mal estar para as classes favorecidas da região central. Diane obstinou-se justamente nesses personagens marginalizados. A eles juntaram-se anões, gigantes, deficientes mentais e travestis, que se tornaram personagens recorrentes em sua galeria de excentricidades. Diane adorava essas pessoas estranhas pelos quais afirmava sentir ao mesmo tempo fascinação e vergonha: “como um personagem de um conto de fadas o freak aparece para nos obrigar a decifrar um quebra-cabeça”. E ela continuava dizendo que “a maioria das pessoas passam a vida temendo uma experiência traumática. Os freaks nasceram banhados pelo trauma. Com isso passaram no teste da vida. São aristocratas”. Os retratos são sempre em preto e branco. Percebe-se que seus modelos posam extáticos para ela, o olhar fixo na câmera. O que se vê são pessoas cruamente expostas em sua precária condição humana, fortemente marcadas por um traço, ou vários, que as insere num grupo específico, uma comunidade ou o que hoje modernamente chamamos de uma “tribo”: os travestis, anões, mascarados, etc. Com isso Arbus abriu um curioso diálogo entre aparência e identidade, ilusão e crença, teatro e realidade. Uma pessoa é o que ela parece ser? Sua imagem funciona como um carimbo de identidade? Ou existe um “para além” da forma? Apesar de profundamente inseridos num contexto social, para Arbus seus modelos são pessoas únicas que representam metáforas delas mesmas. Procuram, ao acentuar um aspecto físico, um detalhe qualquer na roupa, a diferenciação possível dentro do grupo a que pertencem. Numa tradução livre de suas palavras ela diz que seus modelos “inventados por suas próprias crenças são autores e heróis de um sonho que se faz real na medida em que nós, espectadores, nos permitimos deixar abismar”. Com seus retratos, ao evocar a cumplicidade de quem olha, Arbus permite que surja nesta relação tridimensional (artista, modelo e espectador) o espaço da criação. Seria este o “mais além”? O lugar da fantasia de cada um? Susan Sontag, no prefácio do livro Women (Ed. Random House, New York) de Annie Leibovitz, propõe uma questão interessante: “A fotografia não é uma opinião. Ou é?” Para Arbus um retrato é “um segredo sobre um segredo”. Quanto mais ele revela, menos sabemos, mais ficamos intrigados. Num certo sentido o retrato convida a uma opinião, pede uma reação, reação esta calcada nas representações que brotam do imaginário de quem olha.

Além disso, os retratos de Diane Arbus trazem quase sempre a combinação de dois elementos fundamentais. Em primeiro lugar, uma empatia do sujeito fotografado com o fotógrafo. Os modelos de Diane parecem confiar nela, oferecendo-se à câmara com o olhar. Por outro lado, há um detalhe técnico que acrescenta uma aura de estranheza ao retrato: Diane foi uma das primeiras fotógrafas a usar sistematicamente o flash juntamente com a luz do dia. Não só isto evitava o escurecimento de rostos frente a cenários demasiadamente claros, como também banhava o modelo com uma luz dura e direta, sem artifícios. O resultado desta combinação, além da precisa escolha das pessoas fotografadas, é um trabalho marcante e perturbador, que coloca Diane Arbus como um dos nomes mais importantes da fotografia documental

Diane Arbus também gostava de fotografar casamentos e outros rituais que para ela representam momentos marcantes de emoção compartilhada. Procurava mostrar que o contágio de sentimentos, o caráter repetitivo dos rituais insere as pessoas nas suas comunidades dando sentido à vida, tecendo a identidade de cada um pela identificação com o outro. Ao exprimir o retorno do mesmo, o ritual parece querer “driblar” a morte. Se pensarmos que a fotografia congela um instante no tempo, Arbus imortalizou seus modelos, imortalizou Nova York como o território livre que abriga todo tipo de gente.

A sensação de estranhamento diante das fotografias de Diane Arbus remete a um artigo escrito por Freud em 1919 “Das Umheimliche”, cujo título original foi traduzido como “O Estranho”, que pode ser também o inquietante, o macabro. A palavra alemã “umheimliche” curiosamente traz uma ambigüidade que oscila entre num extremo o “familiar” e no outro o “desconhecido”. Então tudo que para nós é estranho é ao mesmo tempo familiar. Duas faces da mesma moeda. Nossa inquietação diante do estranho só é possível porque ele nos leva de encontro a um familiar que ficou esquecido, dormindo calado no inconsciente. Não raro diante de uma fotografia de Arbus surge o primeiro impulso de afastar o olhar, desconcertados “não queremos ver” para em seguida, querermos “ver” no sentido pleno de “olhar” (sentir o que se passa no nosso interior). As fotos de Diane tiveram reconhecimento imediato, tanto que ela recebeu duas vezes a bolsa Guggenheim, em 1963 e em 1966, para subsidiar seu trabalho e desenvolver melhor um trabalho de autor. Um ano após sua primeira bolsa, seu trabalho foi reconhecido por John Szarkowski que deu forma a primeira exposição da fotógrafa no Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova York. Depois ela se dedicou a ensinar fotografia na Parsons School of Design em Nova York e no Hampshire College em Amherst, Massachusetts.

No fim dos anos sessenta Arbus entrou nos asilos e hospitais e fez dos velhos, doentes e anormais seus modelos. Nos retratos “untitled” vê-se todo tipo de tragédia humana que nos chocam enquanto seduzem o mórbido que habita em cada ser humano. É desta época os perturbadores retratos com máscaras grotescas. Se, como afirma outra fotógrafa famosa, Dorothea Lange “cada retrato de outra pessoa é um auto-retrato” as fotos de Diane Arbus são o seu duplo, o reflexo de uma alma atormentada à beira do horror.

Quando no auge de sua carreira, a fotógrafa se suicidou ingerindo barbitúricos e cortando os pulsos em 26 de julho de 1971. Em 1972 John Szarkowski concebeu uma exposição retrospectiva do trabalho de Diane. O catálogo da exposição tornou-se num dos mais influentes livros de fotografia. Desde então, foi reimpresso 12 vezes e vendeu mais de 100 mil cópias. A exposição do MoMa viajou por todo o país e foi vista por 7 milhões de pessoas. No mesmo ano, Arbus tornou-se a primeira fotógrafa americana a ser escolhida para a Bienal de Veneza. Em 2007 estreou o filme 'A Pele', com Nicole Kidman, baseado na vida da fotógrafa.


Elias Chiacchio (Branco Chiacchio) - 11/09/2007

Ferramentas pessoais