Courbet
Courbet é um bom fotógrafo porque é invisível. Não está lá, ninguém o vê. Em seu prórpio auto-retrato parece ser pego em um momento íntimo até para si mesmo. Boas composições, é claro, mas principalmente invisibilidade.
As senhoritas nas margens do Sena
Neste quadro, é possível “sentir” o contexto em que estão inseridas as personagens. Os corpos estão relaxados; vemos a mulher em primeiro plano completamente solta, sem idealizações. Ela nos olha como se sentisse a nossa presença, mas o faz de maneira sonolenta, quase inconsciente. Suas roupas estão jogadas, amassadas; rendas caídas na grama. A segunda senhora figura igualmente entorpecida, olhando o Sena com o pensamento longe. A vegetação ao redor delas parece engoli-las e toma toda a cena, exceto pela pequena faixa de céu que se mistura com o rio. Pouco se percebe do horizonte e esta composição “fechada” aumenta ainda mais a sensação de cansaço das personagens.
O desespero
É um auto-retrato, que transmite todo o sentimento do pintor no momento em que foi composto. Cada músculo de seu corpo, dobra de tecido ou fio de cabelo trabalham juntos para exprimir o desespero. A iluminação contribui para dar o tom, é amarelada e vem de cima, à esquerda. Pode também dar a impressão de espelho, reflexo, como se o artista olhasse a si mesmo.
Proudhon e as crianças
Aqui, Courbet mostra uma cena da intimidade familiar de Proudhon, seu olhar pensativo, os livros abertos no chão, seu chapéu ao lado. As filhas brincam distraidamente e à direita, repousa um cesto de roupas envolto por panos mexidos. Nossos olhos "rodam" por estes elementos, pai, filhas, cesto, chapéu, livros continuamente. O “peso” da imagem é levemente maior na direita, mas a esquerda tem equilíbrio devido à inclinação da perna esquerda do homem, dos livros e dos degraus. As cores são amareladas, talvez por opção do artista ou pelo material utilizado para a pintura.
--Thaisrenzi 12:18, 6 Setembro 2007 (PDT)
Courbet, assim como dito pela Thaís, realmente parece não estar presente, mesmo quando ele aparece na imagem. Também, traz imagens mais descontraídas, naturais, evitando poses. Traz elementos da realidade, trabalhadores, seu estúdio, a morte, mulheres, até mesmo algo mais rotineiro como o seu encontro com amigos. Não pinta coisas necessariamente bonitas, pinta coias reais.
Courbet é muito conhecido pelo seu papel transgressor ao propor novas temáticas para a pintura dentro da corrente realista em formação. Mas sua fama não justifica sua qualidade, apenas atesta. A primeira qualidade que transforma sua obra em algo brilhante é o retrato da realidade como ele a vê, como ele a percebe, e não o retrato belo, o retrato histórico dessa realidade. Traz os “Os cortadores de pedras”, “O estúdio do pintor”, “Enterro em Ornans”, “Proudhon e as crianças” com temas comuns, mas dificilmente retratados, até sua época. Até mesmo temas revestidos de “tabus” hoje em dia, como “A origem do mundo”.
A maior parte de suas telas causa certa melancolia, pela expressão dos personagens, indiferentes. As cores que utiliza tendem para o amarelo e laranja, transparecendo uma sensação doentia. A posição da maioria deles também é “descendente” (cabeça baixa, mãos soltas sobre o corpo).
Em “Enterro em Ornans”[1], ele dispõe os elementos dando destaque para a cruz. Todos estão à mesma altura e acima de suas cabeças está a cruz com Jesus, símbolo máximo na cerimônia. O artista faz um trabalho de contraste de cores interessante. Enquanto todos estão de preto, alguns padres e crianças estão de vermelho e banco todos juntos realizando a cerimônia em torno do padre que está comandando todo o processo, que também está de preto. Mas ele ganha mais destaque pelo contraste com os outros padres que criam uma zona que o separa dos demais elementos de preto. É o ponto sem brilho em meio a cores mais luminosas e chamativas do quadro. O movimento do olhar sobre a cruz e sobre o padre de preto forma uma linha descendente que nos direciona para a cova, quase invisível em meio a tantos, além dela não estar presente por completo na imagem. Não dá para saber quem está dentro dela. Parece que ele diminui a importância da cova na imagem, quase a eliminando, mas a disposição dos elementos garante que seja percebida, afinal a reunião se dá por causa dela, do indivíduo que está lá.
Em “O estúdio do artista”[2], Courbet novamente garante o destaque a alguns elementos em meio a uma multidão. O faz colocando-os no centro e dando-lhes maior luminosidade. O trio modelo-artista-criança nos prende em torno do elemento que justifica toda a reunião e até mesmo a existência do lugar: a obra de arte. A sintonia entre os personagens centrais os separa dos demais, colocando-os em um outro mundo. É como se de repente Courbet tivesse decidido olhar para os lados em um dia que pintava e então descobriu toda aquela movimentação que ele não percebe enquanto pinta, e tudo aquilo era seu estúdio.
Em “O sono” [3] ele é sutil. Apesar de serem duas mulheres nuas enroscadas uma na outra o quadro não tem uma conotação sexual (pode ser sensual, mas não sexual). A atenção de quem admira o trabalho também não se detém nas pernas ou nos seios, toda a atenção se volta para o rosto das meninas que estão dormindo. Parece que Courbet teve que ser bastante cuidadoso na hora de retratá-las. As cores são suaves, assim como a forma que elas se tocam. O fundo escuro garante o contraste com a cama e a pele das meninas.
O quadro “O reencontro, ou Bom dia Senhor Courbet” [4] chama atenção porque ele dá grande destaque ao azul. A maior parte de seus quadros tende ao amarelo e laranja (cores de terra) e, ao colocar os olhos neste, tem-se a sensação de alívio. Também é uma cena cotidiana, sem glamour, do encontro de amigos logo de manhã. O personagem de maior destaque é o próprio Courbet posicionado no terço direito da imagem. O terço esquerdo passa entre os outros dois personagens, dividindo a atenção entre eles. O movimento do braço do senhor de barbas ruivas desvia a atenção para o cachorro abaixo dele.
Por fim, em “Os cortadores de pedra” [5]Courbet traz a temática do trabalho manual, do trabalho pesado. A cor de terra salta aos olhos trazendo a sensação de calor. Juntando isso ao esforço que os homens estão tendo que imprimir para realizar o trabalho, a sensação que fica é de extremo cansaço, falta de fôlego. Ele posiciona os dois personagens um pouco deslocados em relação aos terços, mas a relação deles com o seu material de trabalho ganha destaque, pois é por onde passa o terço (sobre as mãos e braços). Ele também não mostra o rosto dos personagens, traduzindo-os por uma classe, e não necessariamente por indivíduos.
Ana Luiza Decloedt


