Brueghel

Repositório de trabalhos de alunos. Conteúdo experimental.

Pieter Bruegel, ou Bruegel o Velho

Pintor, escultor, arquiteto e decorador de tapeçarias e vitrais flamengo nascido em Breda, no Ducado de Brabant, Paises Baixos, hoje uma província da Bélgica, que criou uma rica pintura narrativa, documentando costumes de época, tornando-se um dos mais representativos pintores flamengos do período Cinquecento (1500-1599) do Renascimento. Discípulo de Coecke Van Aelst, um importante artista de Antuérpia, foi o primeiro pintor de uma família de artistas flamengos. Foi admitido como Mestre na Associação de Pintores de Antuérpia (1551) e viajou para Itália onde produziu uma série de pinturas de menos importância, a maioria de paisagens. Em Roma, produziu a sua primeira obra assinada e datada, Cristo e os Apóstolos no Mar de Tiberíades (1553), e voltou para Antuérpia. Nos anos seguintes continuou desenhando paisagens, especialmente alpinas, mas depois (1556) passou a dedicar-se a temas satíricos, didáticos e moralistas, influenciado por Hiëronymus Bosch. Mudou-se (1563) para Bruxelas onde casou com Mayken, filha do seu professor Van Aelst, que passou a ter mais influência na escolha de seus temas. Além da sua predileção por paisagens, pintou quadros que realçavam o absurdo na vulgaridade, expondo as fraquezas e loucuras humanas, que lhe trouxeram muita fama. Depois de casado, as suas personagens tornaram-se maiores e disformes e morreu no auge de sua produtividade, aos 44 anos de idade, em Bruxelas, e foi sepultado na Igreja de Notre-Dame de la Chapelle, onde tinha se casado.

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O Triunfo da Morte

Durante a Idade Média e início da Idade Moderna pragas, epidemias e guerras religiosas e políticas assolaram a Europa. Falou-se em "castigo divino", como se não houvesse possibilidade de salvação para a humanidade. Uma das formas em que esta visão apocalíptica do futuro proliferou-se foi A Dança da Morte: uma temática do imaginário popular medieval que gerou inúmeras manifestações populares, como a cerimônia realizada nos fundos da igreja (cemitério) no século XIV, que era acompanhada por sermões falando do caráter impiedoso da morte. Os principais personagens eram "a vítima" e "a morte" (representada por pessoas vestidas com uma roupa preta e justa, sobre a qual eram pintadas as linhas de um esqueleto, e usando uma máscara de caveira). Em todos os casos a morte triunfava ao final, ceifando a vida da vítima. Na Florença do século XVI este ritual perdeu um pouco da ênfase moralizante, tornando-se uma cerimônia mais aberta e festiva. O Triunfo da Morte, de Bruegel, mostra que nos Países Baixos a influência da tradição medieval manteve-se forte mesmo no século XVI. Vemos aqui o exército da morte avançando sobre uma paisagem sóbria, exterminando tudo, deixando apenas destruição e desolação.

As cores quentes, sobretudo o ocre, acentuam ainda mais o aspecto infernal da imagem. Os tons brancos e vermelhos, que salpicam a imagem em vários pontos, criam contrastes que só acentuam a dramaticidade da cena. O ângulo do olhar do espectador, direcionado ao chão, reafirma a visão apocalíptica da imagem. Nesta obra, o conteúdo moral é o da morte impiedosa, que assola a todos, sem distinção de classe ou posição social - o rei, o bispo, o plebeu, os amantes, ninguém escapa. É impactante a figura da morte, que aparece sobre um cavalo esquelético bem ao centro da obra com uma foice na mão e em posição de ataque. É possível, inclusive, que Bruegel tenha recebido influência de algumas gravuras sobre esse tema, criadas por Holbein no século XV, bastante reproduzidas em sua época.


Bruegel mantém nesta obra a fragmentação, característica da obra de Bosch: o tema é mostrado através de muitas cenas episódicas e a multiplicação de pequenos objetos ocupam a vastidão do espaço representado. Existem semelhanças entre os dois artistas também na iconografia, pois ambos bebiam do mesmo imaginário medieval. Apesar das semelhanças com Bosch, o horror presente no realismo de Bruegel é algo que o seu antecessor não alcançou.

Na mansão de Quelícera esta imagem foi apropriada como fundo para um dos possíveis fins trágicos dos personagens do jogo. Na Masmorra, por um pequeno deslize de conduta do jogador, seu personagem cai neste espaço infernal, que é mostrado como uma dimensão paralela aberta a partir de um portal.

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A queda dos anjos rebeldes


Esta é uma das obras de Bruegel em que fica mais evidente a origem mitológica cristã do tema tratado, mas sua abordagem não é nada tradicional. Pelo contrário, ele apropria-se de símbolos evangélicos e os junta com imagens que expressam os horrores e alucinações trazidas do fértil imaginário medieval. Assim, fica evidente a influência que Bruegel recebeu de seu antecessor, Bosch. Vários anjos caem a partir de um foco de luz centralizado, ao alto. Trombetas são tocadas e os anjos, mesmo com suas puras vestes alvas, travam uma batalha sangrenta com criaturas surreais e demoníacas. Um clima sinistro e confuso envolve a cena, o horror preenche quase todo o quadro. A cena, se não fossem alguns elementos característicos da iconografia cristã, poderia traduzir uma situação de aflição coletiva do próprio cotidiano da época do artista. A confusão é o que impera.

A batalha que aqui vemos tem como referência uma das transfigurações da luta entre o bem e o mal da mitologia cristã, são anjos rebeldes em guerra com anjos de Deus. A forma como o artista configura seus personagens, no entanto, não deixa exatamente clara quem representa o bem e quem o mal. Mais do que acaso, tal confusão traduz uma dúvida que, ao que parece, rondava o próprio pensamento do artista: o que distingue o bem e o mal?

Em meio à confusão, um dos anjos ganha destaque. Ele veste uma armadura, está ao centro da tela munido de uma poderosa espada, e está prestes a decapitar uma criatura diabólica. Mas quem é este anjo? Na mansão de Quelícera ele atua como um dos habitantes, o Anjo de armadura, que aparece no Claustro. Ele fornece informações importantes para o desenrolar do jogo.


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O Misantropo


Enquanto misantropo, o personagem principal desta obra mostra-se recluso em sua própria capa, distanciado da sociedade, afastado até mesmo do camponês que conduz suas ovelhas na paisagem ao fundo da cena principal. Seu aspecto ermitão fica caracterizado pelo ar de sabedoria conferido pela sua barba, longa e alva, e pela sua expressão facial, muito séria e compenetrada. Mas o misantropo não está só. Sem que perceba, um ser estranho lhe rouba o coração que carrega sob sua capa, ao qual estava ligado apenas pelas veias de circulação sanguínea. Este ser estranho mal pode se mover, está aprisionado por uma armação metálica e esférica que envolve o seu tronco e que tem, em seu topo, um crucifixo. Que ligação o artista nos propõe estabelecer entre o misantropo e o ser que está justamente abaixo do pastor que conduz suas ovelhas? Será que Bruegel fala da complexa e ambígua relação entre a Igreja e o saber espiritual, questão tão discutida em seu contexto histórico (em meio aos conflitos da Reforma e Contra-Reforma)?

É provável que a obra O misantropo faça parte da série Os provérbios, em que o olhar de Bruegel sobre o grotesco ficou bastante evidenciado. Ele era um crítico da sociedade de seu tempo e explicitou isso a partir de temas retirados da Bíblia (como em A parábola dos cegos, que atualmente também localizada no Museu Capodimonte/ Nápoles), do imaginário popular e dos hábitos do camponês de sua época. Ele nos mostra os absurdos do homem, do mundo, da vida.

Por mais realista que seja sua abordagem, não há nela um olhar "pesado" sobre os assuntos tratados, pelo contrário, pode-se perceber um relativo humor - embora nunca um deboche - uma certa brincadeira com os personagens apresentados. Até mesmo quando aborda temas moralmente contestáveis, ele apresenta-os de forma relativamente neutra, sem explicitar julgamentos generalizados, como se os protagonistas da ação não tivessem intenções maldosas por trás de seus atos questionáveis. Bruegel nos apresenta situações e nos deixa margem para tecermos nossas próprias interpretações. Assim como em Bosch e Arcimboldo, a obra de Bruegel carrega ambigüidade (e por isso, complexidade poética), o que faz com que ele vá além da simples alegoria. A interpretação de sua obra alça outras esferas humanas, além do conteúdo moral que pode (ou não) ser percebido nela.


(www.netsaber.com.br)
(www.casthalia.com.br)


Editado por Felipe Azevedo Sant'Anna

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