Brassaï

Repositório de trabalhos de alunos. Conteúdo experimental.

Em suas fotos, Gyula Halász, dito Brassaï, é comum o registro da noite parisiense da década de 30 - sobretudo a vida noturna - com suas figuras típicas (mulheres, casais se beijando etc.). Mas sua obra não se restringe a esses momentos.

Suas fotos são acromáticas, por isso ele se vale muito bem do contraste entre preto e branco e da escala acromática (tons de cinza) para o sucesso de suas fotos. É constante em suas fotografias o uso de contraste entre luz e sombra, o que contribui para dar um tom romântico para as fotos.

O próprio Brassaï se refere a sua obra da seguinte forma: "O efeito surreal de minhas imagens nada mais é do que a realidade tornada fantástica por meio de uma visão particular. Tudo o que eu quis expressar foi a realidade, porque nada é mais surreal... Meu objetivo constante é fazer as pessoas verem um aspecto da vida diária como se elas tivessem descoberto isso pela primeira vez."


Analisemos algumas fotos específicamente:

LA_MOME_BIJOU_1_.jpg Môme Bijou: Retrato de uma senhora à mesa, num café parisiense. Seu rosto, bem iluminado, no foco de interesse superior esquerdo com seu olhar cravado no observador disputa com as mãos, também bem iluminadas, no centro da imagem, as primeiras atenções desse observador.

O enquadramento em plano médio revela o tom de aproximação e a vontade de mostrar de forma mais próxima a mulher.

Todo o conjunto de seus adornos: seus colares, anéis, pulseiras - evidenciados pela sua postura com as mãos, ostentando-os - juntamente com seu vestuário, sua maquiagem, o local onde está sentada - a uma mesa onde estão dispostos um cinzeiro, pratinhos e uma taça - conta uma hístória.

Esse conjunto se mostra como uma sintese do estílo de vida e da imagem que se tinha dessa senhora: a ostentação de uima vida boêmia.

Seville: A fotografia retrata um enfrentamento entre dois homens que se entreolham.

A foto é dividida verticamente por uma grande parede que ocupa todo o lado direito: do lado esquerdo observamos um homem mais forte e do lado direito, entre a parede e o outro homem, observamos um senhor mais franzino.

O enquadramento em plano geral parece não querer privilegiar nenhum dos dois.

O senhor, que fisicamente estaria em desvantagem, não se mostra acoado. E sua posição, perto da parede, ao invés de pressioná-lo, serve como uma espécie de apoio ou compensação para sua força física. A singularidade da imagem está justamente no fato dos dois homens estarem equiparados em suas forças mesmo sendo de tipos tão díspares.

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brassai_2_1_.jpg Couple d'amoureux dans un petit café (1932): Imagem de um casal que está quase se beijando em um café parisiense. Por se encontrarem num canto do local, suas imagens são refletidas simultâneamente nos espelhos das duas paredes.

A beleza singular dessa foto consiste no fato de vermos três ângulos simultaneamente, cada qual valorizando um aspécto da cena: no foco de interesse superior esquerdo, vemos o olhar do homem e no foco de interesse superior direito, o rosto da mulher.

O enquadramento da imagem real, do ponto de vista do fotógrafo, em plano americano, evidencia o distanciamento do observador, sem privilegiar nenhum dos dois.

É como se fossem três fotografias com três enquadramentos distintos (e, portanto, focos diferentes) reunidas em uma só.

Vedetes: A foto mostra vedetes (atrizes de teatro) sentadas, nos bastidores do teatro Folies Bergère. Todas as linhas que compõem a imagem são inclinadas, devido principalmente ao ângulo em que o fotógrafo estava para bater essa foto (um pouco acima do nível das mulheres), o que dá uma grande dinamicidade à cena.

Os vários elementos que a princípio causam uma certa confuzão, se apresentam numa relação harmônica. Uma linha diagonal que parte do canto inferio esquerdo e vai até o canto superior direito corta a imagem em duas partes iguais na extenção, mas invertidas: a sua esquerda está o mundo real, com as vedetes sentadas; do seu lado direito está o mundo "virtual" formado pela imagem dessas mesmas vedetes refletidas nos grandes espelhos diante delas.

Duas linhas (cordas ou fios) perpendiculares a essa já citada dividem a imagem em três terços inclinados e irregulares.

O enquadramento é em grande plano geral. Cada elemento, cada detalhe é capaz de contar uma história particular. História essa que pode ser olhada de dois pontos de vista: o do fotógrafo (superior) e o do espelho (frontal).

Essa é uma imagem complexa e muito rica.

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20060612014142-brassai_1_.jpg Os Degraus: O ângulo em que a foto foi tirada - do alto da escadaria - consegue manter todas as linhas verticais certas e as horizontais, inclinadas. Isso dá à cena certa dinamicidade.

Esse enquadramento também nos dá a impressão de que os degraus e os postes são imagens de espelhos sobrepostos que, ao serem refletidas, se repetem ao infinito. O que é favorecido pela incidência de luz, homogênea em todos os degraus.

Le Baiser: O enquadramento nos faz perceber o quão alto em relação ao chão está o casal. Nossas atenções se prendem rapidamente neles, pois estão no foco de interesse superior direito. Eles estão aparentemente em um balanço, portanto em movimento. Os poucos instantes que tinham parados no ar eram quando o aparelho mudava sua direção. Esse é o exato instante da foto.

Nesse instante o homem se projeta para o lado oposto do balanço (cotra a gravidade) para beijar a mulher que está sentada. Para se projetar, o homem faz um grande esforço - evidenciado pelos músculos de seu braço que estão contraídos, chegando a ficar de pé. O enquadramento, que pega desde o chão, nos ajuda a ter uma noção maior de dimensão da força requerida.

Além de força, foram exigidos do homem, oportunismo e precisão para escolher o momento certo para alcançar a boca de sua amada sem machucá-la. Esse par antagônico formado pelo homem que se esforça totalmente e a mulher que está serenamente sentada é o que dá o tom romântico à cena do beijo suave.

Um par sincrônico que deve ser destacado é o formado pelo oportunismo do homem fotografado e o oportunismo do fotógrafo que conseguiu registrar esse momento único.

Le+Baiser.jpg


Referências:

Imagens de Referência

LOUZAS, André Luiz da Conceição. O voyeur e as brechas do real - Análise de uma fotografia de Brassaï

Autor: Hugo Duarte Cacique


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