Alfabetização visual- livro

Repositório de trabalhos de alunos. Conteúdo experimental.

por Giovanna Sanchez Pedron

Alfabetização Visual

Qual é a importância de ser alfabetizado? Saber ler, escrever, e mais que isso, saber interpretar? A partir do momento em que o sujeito aprende a decifrar os códigos alfabéticos da sua sociedade e, principalmente, interpretá-los, torna-se sujeito da sua própria história. Isso porque a alfabetização dá base para o conhecimento, tornando a pessoa mais apta para formar sua própria opinião e ser mais dificilmente manipulada.

A alfabetização visual tem objetivos similares à verbal: procura dar base para que as pessoas possam compreender e interagir da melhor maneira possível com os recursos visuais, tão utilizados e envolvidos com a comunicação nos dias de hoje.

Logo no prefácio de seu livro “Sintaxe da Linguagem Visual”, Dondis (2007) coloca as mudanças que fizeram com que passássemos de um imperativo de um alfabetismo verbal para um visual:

“Se a invenção do tipo móvel criou o imperativo de um alfabetismo verbal universal, sem dúvida a invenção da câmera e de todas as suas formas paralelas, que não cessam de se desenvolver, criou, por sua vez, um imperativo do alfabetismo visual universal, uma necessidade que há muito tempo se faz existir. O cinema, a televisão e os computadores visuais são extensões modernas de um desenhar e de um fazer que têm sido, historicamente, uma capacidade natural de todo ser humano, e que agora parece ter-se apartado da experiência do homem.” (Dondis, 2007, p.1)

Alfabetismo Visual pode ser definido como a habilidade de compreender e se expressar por meio de um sistema de representação visual. Analisar as imagens com censo crítico pode ser um recurso importante para a compreensão da realidade e de experiências vividas, possibilitando o desenvolvimento da sensibilidade, criatividade e percepção de quem vê.

Podemos comparar o Alfabetismo Visual com uma obra de Salvador Dali, O Toureiro Alucinógeno. Quando olhamos para a pintura, enxergamos uma obra muito colorida, na qual se predomina diversas imagens da Vênus de Milo. Entretanto, enxergar não é ver. A imagem do toureiro, mencionado no título da obra, forma-se como parte escondida por entre as Vênus, desenhando-se no contraste de luz e sombra entre as esculturas. A imagem do homem mostra-se para quem consegue parar e analisar cuidadosamente quadro. Eis a chave do alfabetismo visual: ver além do que está a sua frente.

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Assim como na alfabetização verbal, no caso da visual também temos certos níveis de “excelência”. Por exemplo, uma pessoa que sabe ler e escrever, mas é analfabeta funcional, é bem diferente de outra que sabe interpretar e possui maior bagagem cultural. Assim é também no caso das imagens: a cultura é adquirida por meio de educação e da aquisição de repertórios. Dessa forma, não basta possuir apenas conhecimentos técnicos, mas também uma experiência em observar e compreender o mundo e suas manifestações artísticas, sociais e culturais.

A percepção visual, assim como a decodificação dos signos de linguagem, é inata no ser humano, mas pode ser aprimorada por meio de estudos e, consequentemente, do conhecimento dos elementos visuais que compõe qualquer imagem. Dessa forma, a interação do indivíduo com o mundo visual deve ser estimulada desde sua infância. Instintivamente, só achamos “bonito” o que nos é familiar, o que temos conhecimento. Tudo que causa estranhamento acaba passando por “feio”.

Para se estabelecer um critério para julgamento das imagens, nos baseamos em alguns fundamentos do alfabetismo visual que fazem parte da composição, como, por exemplo, o equilíbrio e a harmonia. O equilíbrio é considerado a referência visual mais forte para o homem, chamada de constante inconsciente formada pelos eixos vertical e horizontal. Ele é encontrado quando os elementos gráficos que compõem determinado projeto estão distribuídos de forma uniforme e coerente. Já a harmonia acontece quando todos os elementos dizem a mesma coisa, seja por cores, formas, etc. Vale ressaltar que muitos artistas e designs procuram a falta de harmonia ou de equilíbrio propositalmente para a execução de suas obras. Edgar Degas, por exemplo, trouxe modernidade na pintura, no sentido das figuras não precisarem estar precisamente enquadradas, como podemos observar em uma de suas mais famosas obras, A Primeira Bailarina.

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Ainda que tenhamos comparado por diversas vezes o alfabetismo visual com o verbal, ele jamais será um sistema tão lógico e preciso quanto à linguagem. As linguagens são sistemas inventados pelo homem para codificar, armazenar e decodificar informações. Sua estrutura, portanto, tem uma lógica que o alfabetismo visual é incapaz de alcançar. Isso porque além de fatores técnicos, o fato psicológico também influi na compreensão e interpretação de imagens, visto que o receptor, ao receber a mensagem, decifra o código de acordo com suas experiências vividas. Daí a necessidade do destinatário ter cautela ao transmitir sua mensagem através dos símbolos, procurando a maior clareza possível.

Segundo Oliveira (2009): “Todo trabalho que envolve criação e/ou manipulação de signos imagéticos está direta ou indiretamente ligado à linguagem artística. Isso porque a linguagem visual tem sua origem – embora com finalidade a princípio religiosa, e não estética – na história da arte. Então, toda a teoria semiótica que sustenta os trabalhos de comunicação e criação visual foi produzida a partir de estudos do acervo artístico humano. Portanto, é imprescindível aos profissionais que trabalham em áreas ligadas a propaganda, editoras, indústrias de audiovisual, indústrias têxteis, arquitetura, designer e televisão, dentre outros grupos que representam mais de um quarto das profissões no Brasil, um conhecimento mínimo de artes plásticas visuais. A qualidade do desempenho de todos esses profissionais está necessariamente relacionada ao conhecimento de arte que esses indivíduos têm.”

Entretanto, esse conhecimento não deve ser limitado apenas aos profissionais das áreas citadas, mas deve expandir-se a toda a população. Isso porque com o desenvolvimento tecnológico, têm-se privilegiado a utilização de imagens na comunicação, justamente por ser de linguagem universal, fácil e rápida decodificação e altamente atrativa e envolvente, permitindo que o fluxo de informações circule da maneira mais ágil possível.

“Em nossa vida diária, estamos rodeados por imagens veiculadas pela mídia, vendendo produtos, idéias, conceitos, comportamentos, slogans políticos etc. Como resultado de nossa incapacidade de ler essas imagens, nós aprendemos por meio delas inconscientemente. [...] O conhecimento crítico de como os conceitos formais, visuais, sociais e históricos aparecem na Arte, como eles têm sido percebidos, redefinidos, redesignados, distorcidos, descartados, reapropriados, reformulados, justificados e criticados em seus processos construtivos ilumina a prática da Arte, mesmo quando essa prática é meramente comercial (Barbosa, 2002, p. 1)”

Vivemos em uma era visual na qual recebemos informações através de imagens através de TV, jornais, outdoors, placas, propagandas, folhetos e outras mídias o dia inteiro. Nesta sociedade imagética é necessário que o cidadão seja alfabetizado visualmente até para construir uma sociedade democrática, já que grande parte das informações vem das imagens.

Referências Bibliográficas

BARBOSA, Ana Mae. Inquietações e mudanças no ensino da arte. São Paulo: Cortez, 2002.

DONDIS, Adonis A. Sintaxe da linguagem visual. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

OLIVEIRA, Maria Márcia Costa. Alfabetização visual: uma abordagem arte-educativa para a contemporaneidade. Estudos Semióticos. Volume 5, Número 1, São Paulo, junho de 2009, p. 17–27.

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