Alan Fletcher
Nascido em 1931 no Quênia, Alan Fletcher era filho de um casal inglês. Sua família regressou à Inglaterra 1936. Ele estudou em quatro escolas diferentes: Hammersmith, the Central School, the Royal College of Art e Yale.
Ele fez parte de uma nova geração de jovens designers cuja única missão era desenhar, e era como o próprio designer se definia ao dizer que era realmente a única coisa que ele poderia fazer.
Fletcher começou a se destacar no fim da década de 50, quando regressa à Inglaterra voltando de uma importante trajetória nos Estados Unidos onde pôde desenvolver seu estilo a partir de influências americanas (principalmente em Nova Iorque, considerada na época a capital mundial do design gráfico). Sua principal diferenciação ao chegar à Inglaterra foi a utilização de quatro cores, quebrando com o padrão monótono dos trabalhos que eram feitos lá (baseados apenas em uma cor, ou no máximo duas).
Em 1962, Fletcher se junta a Bob Gill e a Collin Forbes e formam a Fletcher/Forbes/Gill. A partir daí a produção de Fletcher se intensifica, tendo como clientes empresas como a Pirelli. Além da Fletcher/Forbes/Gill, outras parcerias foram feitas ao longo de sua carreira como a Theo Crosby, e em 1972 a Pentagram.
Durante esse período, Fletcher conseguiu aliar o trabalho intenso (grandes quantidades e grandes clientes) repleto de projetos complexos com a sua filosofia que era trabalhar livremente com suas próprias idéias.
Na parte posterior de sua carreira, Fletcher ainda teve importante participação como consultor de design para a Phaidon Press e a Domus Magazine.
Mas o que importa de fato é o estilo desse grande designer que trouxe grandes mudanças e influências para o design mundial, que visava não apenas algo bonito, ou apenas uma solução comercial, ou ainda apenas algo diferente. Allan Fletcher buscava juntar isso tudo, solucionando o problema, adicionando valor com uma surpresa visual e muita presença de espírito. Ele tinha como recursos uma série de definições e ferramentas técnicas do design que aprendeu em todo seu estudo, mas acima de tudo, ele buscava a grande “sacada”, que não era ensinada em lugar nenhum. Esse último fator é o que diferencia Fletcher da multidão de designers.
O principal foco do estilo de Fletcher é a busca por idéias, o que norteia toda a carreira do designer. Essa característica da obsessão por idéias pode ser observada na relação dele com seus clientes, pois Fletcher não se limitava à simplesmente realizar um serviço, ele sempre queria participar mais ativamente da conceitualização e realização do projeto, não só solucionando o problema, mas também encontrando um “algo a mais” que vai além do briefing do cliente.
A produção de Fletcher engloba peças de todos os tipos: calendários, revistas, folhetos, livros, identidades visuais, produtos e pôsteres, a partir de colagens, ilustrações letras. Todas elas carregam o humor, confiança e liberdade do designer.
Fletcher acreditava que a função do designer era proporcionar uma conexão entre os objetos que usamos e o potencial artístico característico dos seres humanos. Para ele a forma deve seguir a função, mas os designers não devem apenas pensar na funcionalidade, eles devem proporcionar o algo a mais. Nas palavras do próprio Fletcher, “designers must provide the spice as well as the nutrition.”
Fletcher baseia sua carreira em seu simples gosto e desejo por idéias visuais.
Victoria & Albert Museum
A harmonia e equilíbrio dessa peça são completamente claras, proporcionadas pelas formas do V e do A que parecem se completar. A parte espessa do V se contrapõe à única parte evidente do A. Aliás, a própria letra A é um dos pontos mais fortes dessa peça, que apesar de ele não aparecer integralmente, seu entendimento é perfeito. Ou seja, nesse caso, a ausência de elementos é responsável pelo grande diferencial. Esse é o algo a mais, que no caso é um algo a menos, que Fletcher sempre buscou em suas peças. Todos os elementos se unem, parecendo ser apenas uma única coisa.
A simplicidade que três letras podem teriam não é como a simplicidade que Fletcher aplica nessa peça. Estão aí as três letras, na realidade até menos do que as três letras, mas o resultado é muito maior e mais interessante.
Portão de ferro
De tão simples pode até ser imperceptível o aspecto curioso dessa peça à primeira vista, e muitos até diriam “tem alguma coisa diferente nesse portão”, e talvez seja essa uma das características das obras de Allan Fletcher. Num primeiro olhar só conseguimos pensar “que legal”, porém não identificamos o que é tão legal nas peças de Fletcher logo de cara.
Isso porque ele trabalha com o comum, o tornando incomum. Utiliza elementos simples, e os remanejando, Fletcher consegue um resultado tão agradável. Ele consegue proporcional o aspecto mais forte do mundo visual, chamando a atenção das pessoas a partir de algo que todos conhecem, mas de uma forma diferente. Ou seja, não é nada fora da compreensão das pessoas, mas também não é algo completamente banal, e isso faz com que as pessoas se identificam e se sintam estimuladas pelas peças desse grande designer.
No caso desse portão, Fletcher apenas “esticou” as letras do alfabeto (letras que representavam uma das paixões do designer). Algo tão simples que consegue gerar um resultado memorável. A princípio veríamos apenas algumas barras, mas depois enxergamos todo o alfabeto esticado.
Essa é mais uma obra que parte do princípio da simplicidade, a partir de elementos básicos, sem rebuscamentos, sem detalhes complexos. Há um completo equilíbrio entre as formas mais geométricas (cabeça e enquadramento) e as formas mais rabiscadas, mais orgânicas (chifre, corpo, patas e boca).
Cada elemento se mostra essencial para o entendimento da peça, mesmo porque só existe o que é necessário, o que identifica a simplicidade da peça.
Dá-se a sensação de que esses elementos foram montados, uns sobre os outros, como camadas que se sobrepõem. Ao separarmos todos os elementos, percebemos como cada um deles separadamente não faria sentido sozinho.
Essa ovelha tão singela parece até uma brincadeira. Uma peça que carrega o humor de seu criador, que adorava brincar com seu trabalho, que buscava sempre a grande “sacada”.
capa do livro The art of looking sideways
A genialidade do título desse livro é passada completamente para a capa (peça de Fletcher). Essa foi uma publicação da Phaidon, e corresponde a uma das peças mais memoráveis de Fletcher.
Simples como virar um texto, aliás, genial como virar um texto e deixá-lo em pé. Além dessa disposição diferente do texto, deve-se ainda considerar o tamanho do texto na capa de um livro. Quem faria isso? Enfim, ele fez, e fez de um jeito que se torne completamente interessante, que faz com que nos interessamos pelo livro, e até leiamos toda a capa.
A simplicidade é novamente aparente, quebrando um ritmo que pareceria tão chato se o texto estivesse disposto na forma convencional.
Nossa proposta é que qualquer problema visual tenha um número infinito de soluções; que muitas destas sejam válidas; que soluções devem derivar do tema; que o designer não deve ter um estilo gráfico pré-concebido. (Alan Fletcher)
O britânico Alan Fletcher (1931 – 2006) foi descrito pelo The Daily Telegraph como “o designer gráfico mais conceituado da sua geração, e provavelmente um dos mais prolíficos”. A simbiose criada por Fletcher, juntando duas escolas de design, o modernismo suíço e a indústria da publicidade da Madison Avenue, fez com que muitos profissionais da área repensassem seu processo de criação, transformando o design de mero efeito decorativo em protagonista no mundo dos negócios.
Um de seus mais famosos trabalhos corporativos é o logo para a Reuters, de 1965, composto de 84 pontos; o logo “V&A” para o Museu Victoria and Albert, feito em 1989; e o logo “IoD”, para o Institute of Directors (os dois últimos ainda em uso atualmente). [1]
--Daniel de Deus Barcelos 13h48min de 5 de Julho de 2010 (UTC)




